Tomada de posse de Biden: Restaurar a dignidade da América

Autor de quatro livros sobre presidências americanas, Germano Almeida antecipa um caminho muito difícil, mas necessário, de recuperação do essencial para Joe Biden e Kamala Harris.

 

Os anos Trump serão recordados como o momento mais negro da história presidencial americana em mais de um século.

Felizmente, os cadernos de História só exibirão um arco temporal de quatro anos para a presidência lamentável – mentirosa, perturbadora, indigna do legado que a antecede – que Donald J. Trump terminará ao meio dia desta quarta-feira, 20 de janeiro, em Washington DC.

Barack Obama, antecessor de Donald Trump e uma espécie de contraponto, para melhor, em quase tudo, teve tirada profética, no dia da passagem de testemunho, há quatro anos: “Será apenas um intervalo, uma vírgula”.

Felizmente acertou em cheio. Trump foi o primeiro Presidente neste século a falhar a reeleição, o primeiro em quase 30 anos – e o primeiro em nove décadas, desde Herbert Hoover, a perder, na mesma eleição, Casa Branca, Senado e Câmara dos Representantes. Mas podia não ter sido assim. A pandemia acelerou o fim da Presidência Trump e agravou a ideia de “declínio americano”.

Trump perdeu claramente nas urnas – mas abriu, com um grau de irresponsabilidade ainda por apurar devidamente, uma ferida antidemocrática de consequências potencialmente devastadoras. O negacionismo que alimentou sobre a sua própria derrota arrastou um exército de milhões de apoiantes (não todos os que votaram nele a 3 de novembro, mas ainda assim muitos milhões), que contestam a legitimidade de Biden e ameaçam criar uma espécie de “presidência alternativa” em torno de Trump nos próximos quatro anos.

Donald Trump conseguiu passar um mandato inteiro sem atingir pelo menos metade dos americanos a avalizar a sua presidência. Termina a sua presidência miserável com mínimos históricos de 34% de aprovação.

 

O impensável dia 6 de janeiro

 

A invasão do Capitólio baralhou as contas à “narrativa alternativa” trumpista. Antes desse impensável dia 6 de janeiro, Donald Trump parecia ter condições de liderar a “oposição” republicana a Biden nos anos que estão para vir. Pela força dos 74 milhões de votos. Pela capacidade demonstrada de manter como minimamente credível a
narrativa falsa e mentirosa da “fraude” eleitoral. Pelo apoio que manteve no ataque aos juízes, aos funcionários estaduais, aos congressistas democratas.

Mas 6 de janeiro mudou quase tudo. Trump incitou à insurreição (factos são factos e as palavras que proferiu aos vândalos que a seguir invadiram a casa da democracia estão lá, não dá para as esconder) e tornou-se o primeiro Presidente da História americana a ser alvo
de dois “impeachment” (e, desta vez, com dez republicanos a votar pela destituição na Câmara dos Representantes).

6 de janeiro transformou o Trumpismo de corrente dominante a setor antidemocrático no Partido Republicano. Resta saber se o Grand Old Party conseguirá sobreviver, dentro da esfera democrática, a quatro anos de um Presidente que atacou a democracia, ou conseguirá expurgar essa ameaça fazendo prevalecer líderes de dimensão nacional com a capacidade de recolocar o partido a dominar algum dos eixos do poder político.

Não será um caminho fácil – sobretudo quando vemos que quase metade dos eleitores Trump avaliza o que sucedeu no Capitólio. Sim, 30 e tal milhões não chega para vencer uma eleição presidencial americana. Mas é muita gente e ainda garantem muitos lugares ao nível
estadual e mesmo federal.

 

Recuperar o essencial

 

Joe Biden herda o contexto presidencial mais difícil e arriscado das últimas nove décadas – desde que Franklin Roosevelt, em janeiro de 1933, entrou na Casa Branca em plena Grande Depressão.

O 46.º Presidente dos EUA terá de conter a pandemia, operar a recuperação económica e sarar a ferida aberta por Trump: a ferida da divisão profunda na sociedade americana.

A doença americana tem o lado sanitário, do risco pandémico – que é gravíssimo, mas há de passar. Tem o aspeto económico – que ainda será agravado, mas com o tempo também será resolvido (e a Economia americana tem uma capacidade de regeneração e recuperação
impressionante e voltará, certamente, a mostrar a sua força em breve).

Mas há um outro lado dessa doença que pode ser mais fundo e duradouro. Trump arrastou grande parte do eleitorado republicano para uma esfera antidemocrática. Levou o Partido Republicano, tradicionalmente globalista, multilateralista pelo comércio internacional, para uma componente populista, identitária e ultranacionalista, com traços que agradam ao supremacismo branco.

As eleições de 3 de novembro (e até a segunda volta no Senado da Geórgia, realizada a 5 de janeiro) provaram o que as sondagens ao longo dos anos Trump foram mostrando: a maioria clara da sociedade americana rejeita o estilo “bully”, mentiroso e antidemocrático do
Presidente que agora se despede da Casa Branca.

O problema é que a “imensa minoria”, que já chegou a ser de 46 ou 48% e agora estará abaixo dos 40%, de Trumpistas é incrivelmente vocal e agressiva – e sentiu-se legitimada pelo poder, entre janeiro de 2017 e janeiro de 2021.

O maior desafio de Joe Biden é o de restituir alguma normalidade à sociedade americana. Pôr água na fervura política. Baixar o tom da berraria. Criar pontes onde Donald Trump e a sua turba furiosa e arrogantemente ignorante construiu muros. Pode até ser uma missão impossível. Mas é certamente uma tarefa essencial.

 

Um tipo normal

 

Não será fácil “voltar à normalidade”. Talvez não seja sequer possível. Uma das tentações a que Joe Biden terá de resistir nos próximos quatro anos será a de evitar ser uma espécie de “Obama 2.0”. Primeiro, porque nunca o será. Joe Biden não é Barack Obama: não tem o carisma, a capacidade retórica e o poder do exemplo e da inspiração que o 44.º Presidente tinha.

Mas, curiosamente, uma das principais forças do próximo Presidente pode mesmo vir a ser essa fraqueza. Ao contrário de Barack, que era profundo e distinto, Joe é “um tipo normal”. Para o atual momento da política e da sociedade americana, talvez seja isso que seja preciso.

 

Mandato de transição

 

Joe Biden fará 80 anos a 20 de novembro de 2022, pelo meio do mandato. Ronald Reagan, até agora o Presidente mais velho da história americana, nem 78 tinha completado no final do segundo mandato. A América está, por isso, a horas de dar posse ao mais velho Presidente da sua história – com quase uma década de diferença em relação ao anterior em momento homólogo.

Entendamo-nos: numa sociedade que cada vez mais exclui os mais velhos e impõe uma “ditadura” da juventude para postos de poder e “sucesso”, é obviamente uma boa notícia que Joe Biden tenha, aos 78
anos, conseguido o valor histórico de obter 81 milhões de votos.

Sejamos realistas: se é um bom sinal ver o quase octogenário Joe Biden a entrar na Casa Branca, é altamente improvável pensarmos numa Presidência Biden num arco temporal de oito anos. Esta será, possivelmente, uma Presidência de um só mandato. Uma Presidência de transição, de “back to basics”, que recupere o essencial, que restitua a dignidade perdida, depois de quatro anos de uma presidência inaceitável e insultuosa para o legado presidencial americano.

Prioridades de Joe Biden para os primeiros 100 dias: confirmar no Senado as escolhas da sua Administração; vacinação, vacinação, vacinação; conter a pandemia; mostrar mais eficácia e competência na gestão do sofrimento dos americanos; começar a aplicar o plano de
ajuda económica de 1,9 biliões de dólares.

E logo ao Dia 1: revogar a Travel Ban de Trump, dando sinal de inclusão em vez de agressividade; recolocar os EUA no Acordo de Paris, mostrando que os Estados Unidos voltam a ser confiáveis e liderantes em tema crucial para esta e as próximas gerações; revogar a decisão de Trump de construir o pipeline Keystone.

Será uma presidência a dois tempos: primeira fase de dois anos com Joe Biden a ser peça chave entre uma Presidência que volta a ser competente e uma liderança democrata no Congresso em “guerra civil política” com os republicanos (ainda Trumpistas, parte deles); últimos dois anos com Kamala Harris, primeira mulher Vice-Presidente, a ter a difícil missão de provar que pode mesmo ser a candidata presidencial democrata 2024.

Fundamental para percebermos se a Presidência Biden pode vir a ter um sucesso inesperado: saber a partir de quando a Economia americana começa a disparar para a recuperação. Caso isso aconteça pelo final de 2022, início de 2023 (o mais provável, perante a demora na vacinação e o prolongamento do risco pandémico), não é impossível
imaginar um cenário de grande euforia económica e alívio
social por 2024.

A América nunca para de nos surpreender.





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