Libertação total da sociedade? Declarações de Costa são “altamente imprudentes” e “muito arriscadas”, alerta especialista

Tiago Correia, especialista em saúde pública internacional e investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, considera “imprudentes” e “arriscadas” as declarações do primeiro-ministro, António Costa, que davam conta de uma “libertação total da sociedade”, em virtude da “imunidade de grupo”.

“Com a aceleração do processo de vacinação, podemos encarar o final deste verão como um momento importantíssimo para a confiança e para a libertação total da sociedade, que é a imunidade de grupo”, disse Costa na terça-feira em declarações aos jornalistas.

Falar em imunidade de grupo é “altamente imprudente”

Para o especialista, “ainda vamos ouvir falar muito sobre essa frase”, que considera ser “altamente imprudente”. “Nem mesmo o primeiro-ministro inglês, Boris Johnson falou, nesta semana em que houve o ‘dia da Liberdade’, da expressão “imunidade de grupo” e o nosso primeiro-ministro utilizou-a”, afirmou em declarações à Multinews.

“É muito, muito arriscado dizer o que vai ser a imunidade de grupo. É um conceito muito complexo, dinâmico, cujo significado é imprevisível, neste momento, e que nem sabemos se pode ser alcançável de uma vez só”, defende.

Segundo Tiago Correia, “uma coisa é dizer que vamos aliviar as restrições, porque acreditamos que a vacinação é suficiente para conter a doença, não o vírus. Ou seja, apesar de haver circulação do vírus, isso não se vai traduzir numa sobrecarga dos sistemas de saúde”, explicou.

“Outra coisa é dizer que chegámos a um ponto de imunidade de grupo, em que a doença é endémica”, disse apontando para a constante mudança nos padrões da imunidade de grupo. “As estimativas da imunidade de grupo têm sido revistas em função da população vacinada. O ano passado falávamos em 20%, depois passou para 70%, de seguida para 60% e agora já passámos para os 90, 95%”, esclareceu. 

O responsável reitera que “estes valores têm sido revistos e vão continuar a ser, porque como nunca passámos por isto, não sabemos qual é a percentagem de população que precisa de ser vacinada”, afirmou adiantando que “esse número depende em primeiro lugar das variantes que estejam em circulação”.

Depois, para o investigador, “não se pode falar de imunidade de grupo num contexto globalizado, em que o retomar da normalidade significa, entre outras coisas, a circulação de pessoas, e em que o acesso às vacinas é completamente desigual, apesar dos esforços”. 

“Não há imunidade de grupo num país, enquanto não houver essa imunidade num grupo de países, ou pelo menos numa parte do planeta. Portanto é muito pouco prudente falar desta expressão”, defendeu.

Ainda assim, o especialista ressalva que isso “não significa que não se diga que quando chegarmos a uma determinada percentagem de população vacinada, podemos arriscar o alívio de algumas medidas”.

“Eu não me comprometeria com a ideia de libertação total”

Sobre o facto de Costa ter falado em “libertação total da sociedade”, Tiago Correia também se opõe. “Se eu fosse primeiro-ministro não falaria em libertação total, porque Inglaterra está a experimentar o que é isso agora e temos de esperar umas semanas para ver o que vai acontecer”, afirmou.

“A percentagem de pessoas vacinadas no Reino Unido é bastante superior à de Portugal e dado que o país decidiu optar por aqui (reabertura total) o mundo inteiro está na expectativa de saber o que vai acontecer”, frisa.

O especialista diz que num “discurso nacional, eu não me comprometeria com a ideia de libertação total, como fez o primeiro-ministro, porque nós não sabemos o que vai acontecer com o Reino Unido. Eu esperaria algum tempo para falar de imunidade de grupo e nem sequer falaria em libertação total”.

Para além disso, defende, importa pensar “na janela temporal em relação à sazonalidade. O final do verão é um momento a partir do qual por norma aumenta a atividade de outras infeções respiratórias, essas sim endémicas, como a gripe”, refere.

“Nós não sabemos como vai ser este Outono em relação à gripe, nem o que vai acontecer à incidência do vírus e consequentemente ao surgimento de variantes e ocupação dos cuidados de saúde, após o verão e portanto este timing também não é o mais indicado para falar numa libertação total, sou contra isso”, conclui.

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