Cá se vai andando….

por Manuel Lopes da Costa, Country Managing Partner da BearingPoint Portugal

Veio o Senhor Primeiro Ministro anunciar hoje (11/02/21) que o confinamento vai continuar. Que “Não há festejos de Carnaval e a «Páscoa não será a que conhecemos» (in executivedigest.sapo.pt)”. É trágico. E é tão simplesmente trágico porque na verdade ninguém sabe ao certo quando terminará este confinamento. O próprio governo foi obrigado a divulgar metas “Níveis de incidência abaixo dos 2000 casos diários médios, o Rt abaixo de 0,9 e uma positividade abaixo de 5% (in publico.pt, 08/02/21)”, metas essas que os portugueses ficam com a sensação de que “valem o que valem!” ou seja, nada. E ninguém sabe ao certo nada porque na realidade a desinformação é total.

Andamos todos a comentar notícias e factos avulso, divulgados nas redes sociais e nos media tradicionais, sem ter o mínimo cuidado de apurar a veracidade dos mesmos. Todos, desde o simples cidadão até aos meios de comunicação com maior divulgação. E isso é grave. As próprias instituições publicas, que deveriam ser o garante da certeza e verdade não se dão ao respeito.

As conferências de imprensa da DGS são tidas pela larga maioria dos portugueses como verdadeiras anedotas. Mais, verdadeiras fontes de “memes” e “posts” divulgados subsequentemente às mesmas a ridicularizar o que foi lá dito e sobretudo como foi dito. E isto é muito grave. A Senhora Ministra da Saúde também não ajuda, chegando ao ponto de ser desautorizada em público pelo Sr. Primeiro Ministro, o que não é nem bonito, nem muito menos gerador de confiança sobre a sapiência das instituições relativamente ao que se está a passar.

Primeiro-ministro tirou a palavra à ministra da Saúde quando esta falava de confinamento e disse que o tipo de linguagem e a falta de clareza dos dados que lhe têm chegado impedem o Governo de montar uma estratégia eficaz para travar os contágios (in visão.sapo.pt 25/06/2020)”. E assim a população não sabe em quem confiar, mas obviamente, não sendo tola, sabe perfeitamente que andamos todos, mas sobretudo o governo, sem uma estratégia definida tentando levar o “barco” ao sabor do vento, ou seja, à medida dos acontecimentos. Nada de mais errado e perigoso. Se alguma confiança queríamos transmitir na capacidade de estarmos a ser corretamente governados, deveríamos ter colocado em marcha um plano absolutamente irrepreensível de vacinação. Foi exatamente o contrário que acabou por acontecer.

Um plano mal-executado, provavelmente mal concebido (nunca se saberá, tal foi o desastre da sua implementação) que deu azo a vir ao de cima o pior do “tuga chico esperto”, culminando com o vergonhoso episódio das vacinas dos políticos. Foi de tal forma chocante que é inqualificável a posição de alguns dos senhores deputados, encabeçados pelo Sr. Presidente da Assembleia da República, que na ânsia de ser vacinado (…Se uma parte dos autarcas, administradores hospitalares, etc… Já o tinham sido, porque não haveria ele também de ser um recetor privilegiado da vacina milagrosa?…), veio a público criticar os senhores deputados que tiveram o bom senso de não passarem à frente dos portugueses que realmente precisam dessas vacinas.

“Deputados não querem ser vacinados já. Ferro Rodrigues acusa-os de “populismo” (in expresso.pt, 4/02/21). Uma vez mais perdeu uma excelente oportunidade ou de estar calado, ou de marcar presença como se espera de um estadista. Mas desde que proferiu a célebre frase “Então nós íamos mascarados para o 25 de abril? (in Observador.PT 21/04/20)”, dele de facto os portugueses já não esperam nem bom senso, nem muito menos sabem ao certo para que é que ele serve.

Confiemos agora que a missão foi dada a um militar, que finalmente as coisas corram como devido e sem aproveitamentos ilícitos de vacinas pagas com o dinheiro dos contribuintes. Ou seja, que acabe a pouca vergonha que se instaurou e chocou os portugueses recentemente.

Os portugueses estão a fazer grandes sacrifícios. Há um grupo de portugueses, sobretudo os ligados ao setor privado e que continuam a pagar os seus impostos (porque esses não diminuíram nem se vislumbra que irão diminuir) que fazem literalmente das “tripas coração” para continuarem a levar as suas empresas à tona de água e só pedem uma única coisa aos seus governantes eleitos, aos detentores de cargos públicos, às suas instituições, aos seus autarcas: RESPEITO. E não, não é só aos empresários da restauração ou dos festivais e dos eventos, ou das discotecas ou dos do turismo que me estou a referir.

Estou a referir-me a todos os que têm negócios próprios (pequenos, médios e grandes), todos os do setor dos serviços que o Governo e o Sr. Presidente da República não têm dificuldade em confinar e que todos os meses fazem contas e mais contas à vida para fazer face às suas responsabilidades, porque, ao contrário do que se possa pensar, infelizmente, nem todos são candidatáveis aos programas de ajuda existentes.

E assim cá se vai andando à espera de melhores dias. À espera de informação credível, à espera de poder confiar em quem tem a responsabilidade (nada fácil reconheça-se) de nos governar e gerir o dinheiro dos contribuintes portugueses.  Na esperança de não ficarmos todos a cantarolar como referia Sérgio Godinho no seu “Coro das Velhas”: “Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas”.





Notícias relacionadas
Comentários
Loading...