Vamos ter os mesmos €€€ mas comprar menos !

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

O FMI prevê que a inflação em Portugal se situe nos 4% este ano, uma revisão em alta face aos 1,3% previstos em outubro, mas abaixo dos 5,3% esperados para a zona euro, em linha com a previsão do governo e do BP.

O Choque da inflação tem várias causas, é um choque da oferta, consequência da pandemia, da subida do preço dos combustíveis e acho que há aqui uma inflação inercial escondida. Ou seja, os agentes económicos perante a incerteza, para se protegerem com o potencial aumento dos custos, com a escassez de matérias primas, decidem salvaguardar-se e aumentar os preços. Ou seja, não tem apenas a ver com a guerra, com os combustíveis e a energia; com o aumento de preços dos fertilizantes, mas também com as disrupções da oferta, problemas na cadeia de abastecimento (o “evergreen” encalhado no canal do suez por exemplo) e a explosão do consumo depois do confinamento. Basta recordar que o aumento do preço dos combustíveis já vinha a acontecer no ano passado. Ou seja, já começou a existir um fluxo inflacionista antes da guerra provocada pela invasão da Ucrânia, pelo que este não será o motivo único para este movimento inflacionista. Por isso mesmo os factores causadores do aumento generalizado dos bens pode não ser conjuntural mas estrutural. E tem 3 causas (algo que julgo inédito): aumento da procura, inercial e aumento dos custos. A tempestade perfeita!

O que nos coloca o desafio da perda de rendimento e de poder de compra. Perda Real e não aparente. Aumentos salariais de 0.9% e inflação de 4% gera de imediato perda real de poder de compra. Eu não perco rendimento, perco é capacidade de comprar, consumir ou de poupar. Compreendo que aumentar os salários sem saber se a inflação é conjuntural ou estrutural, pode ser precipitado. No entanto a Política fiscal devia fazer uma actualização dos escalões de IRS que não foram desdobrados, em função da inflação, para evitar perdas de poder de compra. Sem aumentar os custos das empresas. Assim a tensão inflacionista associado a mais rendimento disponível não serviria de justificação como causadora de mais inflação. Aliás o aumento dos custos de mão de obra através do aumento de salários, apenas impactam nas empresas e custos de fabrico, se forem exclusivamente acima do aumento da produtividade, que se espera que aumente.

Quanto à necessidade da revisão das tabelas de retenção na fonte que alguns referem como uma questão relevante, é um “não-problema”. Pois significa apenas um adiantamento ao estado da potencial cobrança de imposto, mas não o verdadeiro e real imposto a pagar, que é apurado apenas no final do ano com a totalidade dos rendimentos. Pode apenas ter um impacto na liquidez das famílias e levar a um adiamento do consumo. Importa sim, volto a referir, fazer uma actualização dos escalões de IRS que não foram desdobrados, de acordo com a inflação. Algo que não foi feito.

Acresce o facto de em paralelo com a perda de poder de compra existir um aumento da arrecadação de receita pelo estado, através do aumento dos valor dos Impostos cobrados sobre consumo (IVA e ISP). Ou seja os cidadãos perdem poder de compra e o estado aumenta o seu rendimento.

Em suma, actuar directamente sobre o preço de alguns bens (quando há um aumento generalizado dos preços ao consumidor) por um período específico e em paralelo reforçar o apoio para os beneficiários de prestações mínimas apenas nos levará para um “canto sem saída”.  Pois o preço no carrinho de compras diverge de acordo com o tipo de produtos e a pressão inflacionista pressiona mais alguns produtos de sectores da cesta, nomeadamente da básica. O sector agroalimentar, por exemplo, subiu os preços mais do que a média, subiu +7,24% em março vs o mesmo mês do ano anterior. E este segmento impacta transversalmente os consumidores, nomeadamente os de rendimento mais baixos que gastam, por exemplo 6% do seu orçamento total em pão e cereais (enquanto a família com rendimentos médios gasta apenas 1%) (dados 2016). Portanto impacta mais nos cidadãos com rendimentos mais baixos.

Recordemos também que este impacto não pode ser absorvido por estas famílias, pois cerca de 40% da população gasta tudo o que ganha mensalmente. Não podem ajustar a utilização do seu rendimento, nomeadamente através da redução da poupança por causa da inflação, pois não sobra nada já. O que vai acontecer é terem de consumir menos. Em suma, não sou economista, mas parece-me que na vida real, vamos ter o mesmo €€€ mas infelizmente conseguir comprar menos com o mesmo dinheiro! Chama-se inflação !!!!

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