Uma tatuagem com 43 anos de história

Por Nuno España, Gestor.

No dia 18 de fevereiro, celebraram-se 43 anos da prova Ironman, realizada pela primeira vez em 1978, na ilha de Kona no Hawai.

Nasceu, como muitas das grandes criações, de uma conversa improvável e informal entre amigos. Quinze militares americanos destacados nesta ilha discutiam sobre quem seria o atleta mais completo – o nadador, o ciclista ou corredor? John Collins propôs tirarem a questão a limpo juntando as três provas mais difíceis já existentes nestas modalidades – Waikiki Roth Water Swim (3,85km), Around Oahu Cycling Race (185km) e a Honolulu Marathon (42,2km).

A primeira prova foi ganha por Gordon Haller (11h46), com vantagem de quase 10 horas em relação ao último, Harold Irving (21h01). Apenas 12 terminaram – os finishers, os verdadeiros pioneiros e que para sempre serão considerados os primeiros Ironmen!

Anualmente, existem mais de 70 Ironman pelo mundo fora. Ao longo destes 43 anos, mais de 250.000 pessoas já realizaram esta distância mítica, que deve ser concluída em menos de 17 horas. Todos, sem exceção, trazem uma estrelinha, a motivação da auto superação.

O campeonato mundial de Ironman regressa anualmente às origens. Os melhores profissionais e age-group de todo o mundo tentam recriar a prova mítica e alcançar os feitos dos famosos finishers. Não há sonho que não envolva muito trabalho, o que justifica que a qualificação para esta prova envolva horas infindáveis de treino intenso.

A verdade é que muito mudou e em 2019 foi estabelecido o novo record mundial, pelo alemão Jan Frodeno. O tempo incrível de 7h51 (quase 4 horas menos que o tempo realizado pelo Gordon Haller), reflete a melhoria na preparação física com capacidade para simular condições extremas de treino, o acompanhamento multidisciplinar e a melhoria tecnológica, com o desenvolvimento de fatos de triatlo e ténis de corrida específicos e personalizados, bicicletas de contra relógio e capacetes aerodinâmicos, entre muitas outras coisas.

Nem todos chegam a Kona, mas todos aqueles que concluem a prova, ouvem a mesma voz na meta “you are an ironman”, que os acompanhará para o resto da vida. E é isto que me inspira. Apesar de ser altamente desafiante, é transversal a homens e mulheres, de idades muito diferentes, com condições físicas muito dispares e traz à tona historias incríveis de superação e forca.

As duas pessoas mais velhas a terminar esta prova são dois exemplos.

Madona, americana, freira, corria e pedalava para chegar de forma mais rápida às povoações longínquas que assistia. Participou no primeiro triatlo para angariação de fundos e nunca mais parou. Foram 47 ironman, o último com 87 anos. Hoje com 90 anos não consegue largar as (mais pequenas) provas de triatlo.

Hiromu começou a fazer desporto aos 69 anos e também não parou mais. A primeira vez que competiu em Kona, terminou a prova após 17h20 e por 20 minutos não foi considerado Finisher. No ano seguinte, conseguiu concluir a prova em 17h e 6 segundos e organização decidiu entregar-lhe a medalha, que o japonês, com um marcado lado nipónico, decidiu não aceitar. À terceira foi de vez e, com 85 anos, terminou a prova às 16h40, ganhando o campeonato do mundo na sua categoria. Com 88 anos, continua a treinar e espera que a pandemia lhe permita regressar a Kona este ano.

Tudo isto torna ainda mais especial o que aqueles homens, numa aventura rumo ao desconhecido, fizeram, estando longe de imaginar que seria um legado que ficaria para sempre.

A ideia virou desafio, o desafio virou aventura e hoje o Ironman é um negócio global, sendo um case study por diversos motivos. A marca foi vendida pelos militares há 3 anos à chinesa Wanda e o ano passado à americana Advance por 730 milhões de euros.

A imagem Ironman é a marca mais tatuada no corpo em todo o mundo. Talvez porque toca e transforma tanto todos aqueles que a fazem. Pessoalmente, sinto-me um privilegiado por ser e sentir-me um Ironman.

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