Um sobressalto no mercado da arte

Por Manuel Falcão – sfmedia.org

69 milhões de dólares por uma obra de arte que não tem existência física? Como é possível? A realidade é que aconteceu e a tendência é para que se repita. No dia 11 de março, a Christie’s, uma prestigiada leiloeira especializada em obras de arte, vendeu por 69,4 milhões de dólares (58,4 milhões de euros) uma colagem digital do artista norte-americano Beeple que não tem existência física. Trata-se de um valor recorde para uma obra virtual assente num NFT. E o que quer dizer NFT? – Non-Fungible Token, uma sigla que surge cada vez mais frequentemente, muitas vezes associada a criptomoedas. O Observador propôs uma tradução alternativa a ficheiro infungível – ficheiro digital insubstituível.

Deixem-me contar-vos a história: Beeple, aliás Mike Winkelmann, é um artista digital e o valor obtido pela sua obra é o terceiro mais alto alcançado por um artista vivo (os outros são Jeff Koons e David Hockney) . É também a primeira obra de arte exclusivamente NFT vendida pela Christie’s. “Everydays: the First 5.000 Days” é o título da peça de Beeple, um mosaico de 5.000 obras digitais feitas ao longo dos últimos 13 anos. Winkelman iniciou este trabalho em 1 de maio de 2007 e, desde então, todos os dias criou uma novo desenho que foi incorporando no mosaico final – não falhou nenhum dia, nem mesmo o do seu casamento ou do nascimento dos filhos. Ao longo dos anos, Beeple utilizou várias técnicas digitais, desde o Adobe Illustrator ao Cinema4D. A obra leiloada sob a forma de NFT é a junção digital de todas as cinco mil peças criadas. Os NFT são baseados na tecnologia blockchain, o mesmo protocolo de transações na Internet que é a base de funcionamento das criptomoedas. É essa a razão que leva a que a maior parte dos NFT utilize a plataforma Ethereum, que está por detrás da Ether, a segunda criptomoeda mais valiosa, logo a seguir à Bitcoin.

A venda da obra de Beeple surge na mesma altura em que Jack Dorsey, o criador do Twitter, está a vender, em formato NFT, o seu primeiro tweet, que marcou o lançamento público da sua rede, por 2,5 milhões de dólares (2,1 milhões de euros) e não faltam interessados. Dorsey entregará o produto da venda a instituições de caridade e o tweet em causa não podia ser mais simples – é o primeiro post do twitter, colocado por Dorsey a 21 de março de 2006, e dizia apenas isto:  “just setting up my twttr”. Esta frase foi agora incorporada num NFT e colocada à venda.

A Christie’s revelou que o comprador da obra de Beeple foi um investidor financeiro conhecido pelo pseudónimo de Metakovan, que não quer revelar o seu verdadeiro nome. A leiloeira aceitou que o pagamento dos 69 milhões de dólares fosse feito através da moeda virtual Ether. Metakovan é o responsável financeiro pela Metapurse, um fundo de investimento que funciona apenas em criptomoedas e que compra NFT e outras propriedades virtuais. O certificado de autenticidade da obra é a sua imagem incluída no próprio NFT que foi gerado há poucas semanas, com recurso à tecnologia blockchain. A imagem da obra pode ser copiada mas o NFT não – e o valor reside aí. O leilão de “Everydays: the First 5,000 Days” foi iniciado a 25 de fevereiro e logo na abertura alcançou uma licitação de um milhão de dólares. O valor final foi alcançado nos últimos 10 minutos do prazo de venda (o leilão terminava a 11 de março), com o valor a disparar dos 14 milhões, em que então estava, para 30 milhões e depois, num único lance, para o valor final da licitação feita por Metakovan. Segundo a Christie’s, o site do leilão teve 22 milhões de visitantes nos últimos minutos e ao longo de todo o processo  registaram-se duzentas pessoas, verificadas e acreditadas pela Christie’s, para poderem fazer licitações. Aguardo com expectativa os próximos desenvolvimentos deste novo mercado de arte.

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