Todos temos um amigo louco!

Por Nuno España, Gestor

Existem pelo menos três coisas que são garantidas nas nossas vidas – que nascemos, morremos e que temos (pelo menos) um amigo louco.

O amigo louco desafia-nos, faz-nos ver o outro lado, faz-nos questionar e arriscar, é sempre a alma da festa, o bem-disposto, o que enche qualquer sala. O amigo louco regra geral tem um coração maior que ele próprio e uma enorme vontade de marcar o mundo. Fá-lo todos os dias, mesmo que de forma inconsciente. Este amigo louco é imprescritível para as nossas vidas.

Felizmente também eu tenho um e não abdico dele. Conheço-o há mais de 30 anos, mas o clique deu-se num projecto em Cabo Verde em 2002. Desde então nunca mais nos largámos. Luís – o louco, gordo, gordinho, bolinha – entre tantos outros nomes, que, apesar de à primeira vista poderem parecer ofensivos, transbordam todos eles um enorme respeito pela pessoa que é e pela importância que tem na minha vida. Foi este louco que, que quando o meu Pai morreu inesperadamente, se fixou no hall lá de casa durante 3 dias inteiros, pronto para ajudar, em todos os recados e tretas necessárias nestes momentos.

Hoje, advogado, casado e com quatro filhos, deixa sempre claro a pessoa que é. Sportinguista ferrenho, de direita acima de tudo e um jogador de rugby para a vida, apaixonado pelo seu CDUL. Tanto tem de excêntrico e bruto como de bondoso e exímio cuidador, vivendo entre os extremos das suas loucuras. Ou se detesta ou se adora. Na verdade, acho que todas as pessoas verdadeiramente loucas e verdadeiramente transparentes carregam este “peso” de não agradar a gregos e a troianos e vivem desta “liberdade” de poderem ser o louco que há dentro deles.

A vida do Luis merece um pequeno apanhado. Na faculdade, decidiu parar para se focar no que realmente era importante para ele – o namoro, os estudos e o futuro. Foi louco o suficiente para abrandar, para lutar pelas suas prioridades. Mas os grandes amores dificilmente se abandonam à primeira, e muitos anos depois, decide voltar a jogar rugby. Ele e os seus, na altura, 127 kgs. Mais uma vez, de forma louca e apaixonada, trabalhou como ninguém, obcecado e focado como mais ninguém é. A vida pregou-lhe uma partida e mandou-o para o Porto. Este louco levou o rugby com ele e trocou o L pelo P, entregando-se de corpo e alma ao CDUP, que ajudou a levar até à final do campeonato da 2a divisão. Quando a vitória era praticamente garantida, a 10 minutos do fim, magoou-se e foi operado de urgência. Esta lesão no pé vinha com uma sentença pesada: nunca mais tocar numa bola oval na vida.

Não tenho dúvidas que sofreu, mas há pessoas para quem o sofrimento é gasolina. O louco Luís é desses e daqueles que contraria tudo e todos. Recuperado, já só queria superar-se e mostrar ao mundo que o “mundo é dos que lutam muito”. Não foi preciso pensar muito e, passado pouco tempo, a terapêutica estava definida: correr uma maratona.

Começou a correr e nunca mais parou. “Run, Forest. Run!”. O louco que transporta os sonhos, que os torna realidade, o que não para, doa o que doer. As corridas populares, as maratonas e ultramaratonas deixaram de ser suficientes e decidiu que as míticas provas de 100 milhas (160 quilómetros) na montanha eram o desafio seguinte. Mais uma vez, provas superadas. E agora?

Pois bem, o ano passado escolheu a Tor des Géants. Há desafios loucos e depois existem provas como esta. Considerada como uma das provas mais duras do mundo de corrida em montanha, com 330 quilómetros e 25.000 metros de acumulado positivo (equivalente a subir o Evereste praticamente 3x!!) nos Alpes italianos. O Luis, mais uma vez, superou, surpreendeu e ao fim de 6 dias sem parar (145 horas), chegou à tão desejosa meta.

O Luis ainda não encontrou o limite nos alpes italianos, mas percebeu que esse limite não é por lá que vive. Continuará, por certo, a procurá-lo. O Luis faz post mortem rápidos deste tipo de aventuras e aposto que já tem em mente o próximo desafio.

Vamos aguardar o que vem de lá porque precisamos de mais pessoas como o Luis. O amor, a paixão e a intensidade com que vive a sua vida mostram-nos que pessoas ditas loucas conseguem alcançar coisas épicas e, desta forma, inspirar-nos a todos.

Obrigado por tudo, Luis!

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