Será?

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Tendo a considerar as previsões do banco Goldman Sachs como efetivas, pelo que fiquei algo satisfeito com a previsão de crescimento da zona euro em 2023, revendo em alta as suas perspetivas, que antes apontavam para uma recessão. Mesmo contrariando as da OCDE e de outras instituições que preveem uma ligeira contração económica. A queda dos preços do gás, do petróleo e a reabertura da economia chinesa, antecipam um crescimento de 0,6% para as economias da moeda única, face à previsão anterior, que apontava para uma recessão de 0,1%. Crescimento mais fraco nos meses de inverno por causa da fatura energética mas com um crescimento resiliente depois deste período. Mesmo com a desaceleração da economia Alemã (a indústria representa cerca de 29% do PIB) e Italiana (a indústria representa 24% do PIB) que dependem muito da energia para a sua atividade industrial intensiva, mas compensada pela França (indústria representa cerca de 17% do PIB) e Espanha que têm uma economia mais diversificada, assente na atividade industrial mas também nos serviços. Julgo que uma das boas notícias será a manutenção da taxa de desemprego, o que significa que as empresas irão resistir e conseguirão mesmo aumentar os salários entre 3,6% e 5% para compensar os efeitos inflacionistas. O pico da inflação já passou (segundo a Goldman Sachs), muito por força do aumento das taxas de juro e de redução dos custos energéticos; mas continuam (em minha opinião) os riscos especulativos de algumas empresas que se estão a aproveitar da inflação para ganhar “mais do que seria esperado” e a pressão de aumento de preços devido ao aumento do custo do trabalho. Outra boa notícia decorrente desta redução da pressão inflacionista será a paragem do aumento das das taxas de juro pelo BCE em 3,25% em maio (valor máximo). No entanto este valor é muito elevado para particulares e empresas. Provavelmente o único fator positivo para os particulares (e para a banca) é de que apenas 30% dos imóveis em Portugal foram comprados com recurso ao crédito á habitação e muitos deles negociados com taxas e perspetivas já neste cenário inflacionista. Até porque espera-se que a primeira baixa nas taxas de juro apenas irá acontecer no quarto trimestre de 2024.
Mas existem riscos que podem afetar esta previsão, nomeadamente a instabilidade política. As eleições legislativas em Espanha até ao final de 2023 ou o desafio na Alemanha de Olaf Scholz em manter a coligação “semáforo”. Na França está a acabar a “lua de mel” com o Presidente, pois estão a terminar os apoios  governamentais no preço da luz e do gás e que devem aumentar este ano 15% (segundo o Le Monde). Neste país, o descontentamento social vai ainda ser agravado com a discussão da reforma das pensões que Emanuel Macron tem de atingir para garantir a sustentabilidade do sistema. No entanto, talvez a crise mais evidente seja no Reino Unido com a pressão para marcação de eleições antecipadas. O Reino Unido está em recessão, com os economistas a prever que caia 1,4% em 2023 e o desemprego a aumentar. Finalmente as alterações climáticas e as imprevisibilidade do clima pode ser um risco elevado para a estabilidade da economia. Existe ainda o risco da blocalização que acredito irá acontecer. Este modelo implicará a substitutibilidade: com a reindustrialização dos blocos, a flexibilidade na produção e  a padronização internacional dos insumos. Esta fragmentação da economia mundial, levará à criação de redes de fornecedores confiáveis em países amigos (“friendshoring”) apoiado no “nearshoring”. Talvez a maior dificuldade seja na aquisição e matérias primas baratas, embora os preços de commodities estão a cair (apesar de relativamente ainda serem altos e previsivelmente continuarem nos próximos 2 anos). A OMC prevê que o comércio global cresça apenas 1% em 2023, fruto do desacelerar da economia mundial, da política monetária, da guerra na Ucrânia mas também da blocalização.
Finalmente nem tudo é mau, pois existem oportunidades relevantes como o crescimento na exportação e importação de mercadorias justificado com o comércio eletrónico (e-commerce) em +10% em 2022 representando 300 mil milhões de dólares mas com perspetivas de chegar a um bilião de dólares até 2030 (DHL report). Ou mesmo a diversificação de produção da China para o Vietname, Índia e Filipinas. E ainda o aumento das exportações do Sudeste e Sul da Ásia bem como da África Subsaariana. Ou seja as cadeias globais de valor serão mais diversificadas. Infelizmente Portugal continuará a ter um forte perfil importador.
Em suma, prever é sempre um exercício difícil mas SERÁ que o Goldman Sachs tem razão? Esperemos que sim!

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