Será que os jovens ainda conseguem comprar casa em Portugal?

Por Duarte Ferreira dos Santos, Vice President of Investments da Casavo em Lisboa.

Atualmente, a maioria dos jovens portugueses enfrenta dificuldades para adquirir a primeira casa, e tipicamente só consegue atingir a maturidade financeira necessária
para concretizar a compra numa fase posterior da sua vida.

A complexidade de suportar o valor de entrada de uma habitação, os atuais preços das casas, os salários e o custo de vida a nível nacional são alguns dos fatores que levam Portugal a ser o quinto país da União Europeia onde os jovens saem de casa mais tarde (cerca de quatro anos mais tarde do que a média europeia, que atualmente se situa nos 26,4 anos), segundo dados de 2021 da Eurostat.

Esta conjuntura poderá vir a complicar-se ainda mais com a recente alteração das
regras de concessão de empréstimos, que favorece as pessoas entre 20 e 30 anos na atribuição de créditos habitação, em detrimento da faixa etária seguinte. As novas regras ditam que, a partir dos 30 anos, a maturidade dos créditos habitação deve ser menor, sendo atribuído um crédito com uma maturidade máxima de 37 anos a clientes com mais de 35 anos.

Se tivermos em consideração que os jovens portugueses só obtêm autonomia financeira para sair de casa com cerca de 30 anos, estas medidas podem vir a ser prejudiciais ao dificultarem o acesso ao crédito e, consequentemente, à habitação.

Ainda assim, apesar de esta ser uma geração que se vê forçada a permanecer em casa dos pais até mais tarde, continua a existir uma preferência cultural para adquirir casa ao invés de arrendar.

Segundo dados da Eurostat e do Banco de Portugal, 77,3% dos portugueses possui casa própria e, em 2021, foram concedidos mais 34% de créditos habitação, o que revela a aparente manutenção desta preferência.

Em suma, temos uma população que quer comprar casa própria, mas uma população jovem com dificuldades para o concretizar. Perante esta conjuntura, como se pode facilitar o acesso por parte dos jovens à habitação?

Não sendo possível fazer alterações ao nível da legislação nem reduzir os custos da
construção nova, uma das possíveis soluções para apoiar os jovens portugueses passa por garantir uma avaliação justa das habitações usadas (renovadas), com base em critérios definidos e factuais.

A localização, a idade do edifício, a eficiência energética da casa e as condições do imóvel são alguns dos fatores a ter em conta aquando da análise de uma casa, de forma a evitar que ocorra uma sobrevalorização artificial e, consequentemente, permitir que estas sejam mais acessíveis.

No entanto, para se conseguir obter avaliações objetivas e transparentes será necessário transformar os procedimentos utilizados pelos stakeholders do mercado, para que os valores sejam mais rigorosos e justos. Assim, a tecnologia surge como fator essencial para impulsionar as mudanças necessárias ao setor imobiliário, ao permitir analisar e posteriormente avaliar o parque habitacional sem qualquer subjetividade, influenciados pela ambição, especulação ou interesse.

A tecnologia é assim uma das chaves para conseguirmos acelerar a democratização do acesso à habitação, a estabilização dos valores dos imóveis e a transparência do setor imobiliário em Portugal.

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