Recuperação, Resiliência e Futuro

Por Arlindo Oliveira, Professor do IST e Presidente do INESC.

O Plano de Recuperação e Resiliência, que define os objetivos a atingir e os meios a utilizar para recuperar a economia portuguesa, foi posto em consulta pública. Este plano, descrito num documento de 147 páginas, define como iremos investir cerca de 17.000 milhões de euros, dos quais quase 14.000 milhões são subvenções. A organização do plano em três dimensões (resiliência, transição climática e transição digital) não torna a leitura particularmente fácil, porque é difícil perceber a lógica subjacente à definição destas três dimensões.

Uma leitura mais atenta permite perceber que a dimensão resiliência é, de facto, uma designação genérica para investimentos em áreas tão diversificadas como a saúde, a educação, o território, a floresta e a mobilidade. Nada a obstar, dado que as necessidades de investimento em muitas destas áreas são bem conhecidas e tinham já sido identificadas em análises anteriores. Uma questão diferente é se os investimentos propostos são os mais adequados ao fim em vista, mas para isso seria necessária uma discussão mais profunda e demorada, com base em prioridades, medidas e orçamentos.

Na dimensão da transição climática, destacam-se diversas medidas de mobilidade sustentável, descarbonização da economia, eficiência energética e o muito discutido investimento na economia do hidrogénio.

É na dimensão da transição digital, mais próxima da minha área de trabalho, que noto, desde logo, limitações severas. Em primeiro lugar porque a única medida significativa dirigida aos mais jovens é a chamada transição digital na educação. Com um orçamento de 500 milhões de euros, esta medida é totalmente focada em investimentos em infraestruturas: computadores para alunos e escolas, redes de acesso, projetores, etc. Se é certo que o investimento em equipamento e conectividade é importante, não é menos importante a educação dos jovens, e dos seus formadores, no digital.

Não me refiro aqui a ensinar os jovens a usar folhas de cálculo ou processadores de texto, algo que é praticamente inútil. Refiro-me a formá-los de uma forma sólida na área da computação, essencial para preparar as novas gerações para o mundo que já existe e para um futuro onde o papel dos computadores, programas e aplicações será determinante, a todos os níveis. O ensino da computação nos seus aspetos fundamentais (e não só tecnológicos) deve ser encarado como uma componente formativa base, semelhante à da matemática ou da língua mãe. Mas, para que isso aconteça, é necessário suportar e desenvolver as (poucas) iniciativas que existem nessa área, formar os professores para que possam ser os motores desta transformação, e executar não só projetos piloto, mas uma transformação à escala nacional, como já aconteceu noutros países.

É certo que o plano inclui uma componente relevante de formação e atualização na área das ciências e tecnologias, mas é toda ela dirigida a estudantes universitários e à requalificação de adultos, iniciativas que de facto são meritórias e relevantes. Mas o futuro do país passa por darmos às novas gerações as ferramentas mentais (e não apenas os equipamentos) que lhes permitirão ser eficientes e produtivos na sociedade digital do futuro. Ignorar esta dimensão de formação dos jovens, num documento que definirá o futuro do país nas próximas décadas, é desperdiçar uma oportunidade única de criar um país mais moderno, competitivo e resiliente.

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