Que solução para o mundo BANI? L.I.S.B.O.A

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

O termo BANI surgiu no século XXI e foi vulgarizado pela pandemia de Covid. Substitui um termo que surgiu na década de 90, o mundo VUCA (Volatile, Uncertain, Complex and Ambiguous — Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo). Este termo salienta as mudanças na tecnologia, na sociedade e na cultura, com impactos na comunidade. Se já foi difícil adaptarmo-nos a este mundo volátil do final do sec XX, imaginemos o quanto está a ser difícil entendermos o mundo perante o colapso que se verificou em 2020. O antropólogo norte-americano Cascio simplificou numa sigla em 2020: BANI (Brittle, Anxious, Nonlinear and Incomprehensible — Frágil, Ansioso, Não linear e Incompreensível). Ou seja um mundo sem rumo para o qual não estávamos preparados, na nossa prepotência de conhecimento total. Mas a solução para enfrentar este mundo diferente é mais simples do que parece e depende mais de nós do que poderíamos esperar. Basta trabalharmos não o conhecimento mas o comportamento. Não as hard skills, mas as soft skills. Ou seja temos de ser como LISBOA (Lucidez, Inteligência emocional, Serenidade, Bom senso, otimismo, Alternativa). Ou seja são estas competências emocionais e comportamentos a desenvolver para enfrentar o mundo BANI. E referi desenvolver pois todos estes comportamentos podem ser treinados e potenciados, quer a nível individual, quer organizacional. A liderança é fundamental e deve estimular uma cultura baseada em LISBOA. O primeiro factor e talvez o mais importante é dar o exemplo, “walk the talk”. Portanto o líder tem de merecer confiança e credibilidade para ter sucesso.

A ansiedade do mundo BANI é gerada pela fragilidade e urgência generalizada de um mundo que não controlamos e por vezes nem entendemos. Só há dois comportamentos possíveis para ultrapassar esta realidade que afecta todas as empresas e pessoas de forma a evitar o burn-out individual e organizacional: O.timismo e B.om senso. O otimismo permite encarar a realidade pelo lado positivo e seguindo um processo que está treinado, esperar sempre um desfecho favorável. Mas saber retirar sempre algo positivo de desfechos desfavoráveis, pois como a aprendizagem e experiência para não repetir erros. O processo é o que permite está aprendizagem, pois é a sequência de ações que se espelham no dilema do copo, “ meio cheio ou meio vazio”. Se soubermos encarar as consequências e soluções possíveis de determinado factor, limitamos o pessimismo da inteligência, potenciando o otimismo da vontade. 

A fragilidade significa fraqueza ou inconsistência no mundo actual. Talvez esta falta de bases (que na realidade ninguém tinha) que a pandemia mostrou ao mundo, enfatizou algo que até então não era óbvio: estamos propensos a incidentes e mudanças que nem concebíamos. Portanto o medo de não conseguir ultrapassar determinada situação é provavelmente o maior risco. A I.nteligência emocional de Daniel Goleman é a forma de racionalizar os sentimentos e emoções individuais e colectivos. E a capacidade de lidarmos com as emoções é muito mais importante que a competência para processarmos informações, pois permite ultrapassar o sentimento de fragilidade. Uma organização resiliente entende quais são os “gatilhos” a evitar ou minimizar, para ser sempre consistente. Um rumo, cultura e propósito organizacional são elementos que anulam este efeito. O coaching e o treino são óptimas ferramentas individuais para criar consistência.

A ideia de não linearidade é algo revolucionário para o ser humano. Aprendemos a organizar o mundo assente na linha do tempo e de uma continuidade evolutiva. Algo utópico no mundo BANI pois a relação entre causa e efeito não é consequente, pelo menos de imediato. O que pode tornar qualquer planeamento de médio e longo prazo, inútil. E quanto mais detalhado, mais inútil se torna. O que significa que as soluções apenas racionais, como sempre as conhecemos, já não servem o seu propósito. A resposta é criar A.lternativas de duas formas: na forma de planear, que terá de ser racional mas também intuitiva (“the smell of the place”); criar sempre 2 cenários de planeamento, o provável e o improvável (ou seja aquele a que se recorre , se tudo correr mal). Este sentido de solução baseado na autoconsciência, permite conhecer as forças, fraquezas e limitações. Ou seja a SWOT individual e colectiva com a correspondente ação (ou ações) para eliminar as fraquezas, potenciar as forças, maximizar as oportunidades e erradicar os riscos. Mais uma vez o papel da liderança transformacional é fundamental para desenvolver o sentido de autoconsciência e auto-regulação. 

Finalmente o mundo incompreensível, algo que acontece tantas vezes actualmente, em que somos confrontados com informações diferentes e por vezes até contraditórias sobre o mesmo assunto. Em que as instituições e referências se desmoronaram. Em que nos isolamos pois não queremos admitir a nossa dificuldade em acompanhar a quantidade crescente de inovações, em que não conseguimos transformar os dados em informação. A incompreensibilidade é também (a par da falta de referências e de fontes credíveis) uma consequência dessa sobrecarga de informações e da revolução tecnológica diária. O nosso conhecimento fica esclerosado a cada segundo que passa. A resposta, como tudo, é simples: S.erenidade, ou se quisermos tranquilidade e sangue frio para conhecermos as nossas limitações e priorizar, selecionando apenas os avanços que nos podem ser úteis; assim como as fontes e referências que servirão de base à formação da nossa opinião. Por outro lado a L.ucidez, ou seja a capacidade de autoconhecimento, conhecer as limitações e os receios; mas também a clareza e perceptibilidade de selecionar o útil e dispensar o inútil. Assim definimos um modelo de adaptação resiliente à única certeza que existe – “a certeza de que tudo muda”. 

Em suma, L.I.S.B.O.A. como forma de ver o mundo BANI como uma oportunidade. E a cidade de Lisboa espelha bem este espírito. Uma cidade de luz, multicultural, reconquistada aos mouros, resiliente que se viu no terramoto de 1755 uma oportunidade de se reconstruir de forma organizada, com as suas oito colinas que tornam a vida difícil e desafiante, que recebe os migrantes de forma acolhedora criando um mosaico multicultural. 

Esta cidade reflecte bem (em vários domínios) o espírito necessário num mundo BANI. Relembrando que “não são os mais inteligentes que sobrevivem, mas aqueles que melhor se adaptam ás mudanças”!

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