Provavelmente a melhor esmola de sempre

Por Nuno España, Gestor

No outro dia estávamos a passear de manhã pelo Chiado. Era daquelas manhãs boas de Outono, em que o frio e o cheiro a castanhas já se fazem sentir, mas o sol sente-se na pele e aquece-nos, recordando o verão que há pouco tempo ficou para trás. Enquanto uma parte da família fazia compras para o Natal numa qualquer loja, o António e eu ficámos na rua a ouvir duas pessoas a tocar do outro lado do passeio.

Eram estrangeiros, embora não tenha conseguido entender de onde. O mais velho, pareceu-me o Pai. Tocava acordeão e sentia-se uma preocupação genuína em criar as condições para que fosse um concerto memorável para todos os que ali se encontravam. O mais novo deveria ser o filho. Deveria ter talvez uns 10 anos e tocava violino.

Ainda era cedo e poucas eram as pessoas na rua, mas aquelas que iam passando, não ficavam indiferentes à forma fantástica como o rapaz tocava, à cumplicidade entre Pai e filho e à alegria dos dois a tocar como se fosse o último concerto que dariam. Chamava também a atenção a forma como estavam em perfeita sintonia e já não se sabia onde começava um e terminava outro e vice-versa.

A certa altura, passa um mendigo com o seu cão. Era português e deveria ter os seus 25 anos. Tinha um ar triste, abatido e cansado, mas também ele não ficou indiferente à música, sobretudo a forma como os dois tocavam. O mundo podia acabar, mas eles estavam tão dentro da música que muito provavelmente nem se iriam aperceber se tal acontecesse.  Tal como nós, também o mendigo parou e também ele ficou a admirar o que ali se passava. Estava tão espantado, que de forma natural e inconsciente disse em voz alta “este miúdo é uma loucura”. Rapidamente lhe perguntei como se chamava. Disse-me João e que o seu companheiro chamava-se Patinhas.

Assim que o rapaz se apercebeu da presença do João, algo lhe chamou a atenção. Rapidamente parou de tocar e chamou o João com um sorriso. No início, ficou incrédulo e duvidou que fosse para ele mas assim que o rapaz voltou a chamá-lo, o João foi para junto do rapaz. O rapaz, sempre com um sorriso na cara, pediu umas moedas ao Pai e entregou-as, cumprimentando ainda o Patinhas. O João agradeceu emocionado e continuou o seu caminho. Partiu com um sorriso na cara e acredito que, naquele momento, tenha partido com uma nova esperança nas pessoas, nas boas intenções e no mundo. Com a mesma naturalidade com que parou, o miúdo voltou a pegar no violino, sorriu para o Pai, e recomeçaram a tocar como se nada tivesse acontecido.

Esperava qualquer coisa menos aquele gesto, sobretudo de um miúdo tão novo. Impossível ficar indiferente. Nem eu nem todos aqueles que assistimos a um exemplo tão incrível de entrega, serviço e amor ao próximo. Confesso que fiquei emocionado, ao mesmo tempo que me senti privilegiado por poder assistir a este momento com o meu filho mais velho, para quem este momento também não foi indiferente.

Numa fase em que o mundo também ele se está a reconstruir, naquele dia voltei para casa claramente mais rico e também feliz por ter conhecido este rapaz. Sem se ter apercebido, também ele e o seu Pai, me deram esperança e vontade de ser mais e melhor pessoa, porque caridade e empatia não se limita a darmos o que nos sobra mas aquilo que efetivamente nos faz mais falta, enquanto comunidade e sociedade.

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