Preços verdadeiros e custos escondidos

Por Joana Pais, Professora do ISEG, Universidade de Lisboa, e coordenadora do XLAB-Behavioural Research Lab

Quanto custa realmente um par de jeans? Pode parecer estranho, mas muito mais do que por vezes pagamos por um par de jeans.

O preço de uns jeans reflete os custos com matérias-primas e com a confeção suportados pela empresa que os coloca no mercado, bem como a satisfação que o comprador retira da sua utilização. No entanto, a produção de jeans gera outros custos, que não são suportados pela empresa, mas pela sociedade – pelos trabalhadores, pelas comunidades que habitam os locais de produção e até pelas gerações futuras. Estes são, na linguagem dos economistas, os custos externos ou as externalidades negativas, isto é, os efeitos que uma ação ou transação económica pode ter sobre terceiros que não fazem parte dessa ação ou transação. De acordo com a True Price, organização que se dedica a avaliar estes custos escondidos na produção, os custos externos de um par de jeans produzidos no Bangladesh a partir de algodão da Índia excedem os 30 euros: 8 euros no cultivo do algodão, devido sobretudo à utilização de água e à poluição; 20 euros na etapa de produção de ganga a partir do algodão e 3 euros na confeção, que refletem principalmente salários baixos e más condições de trabalho, por vezes em regime de quase escravidão, e trabalho infantil. Para calcular estes valores, a True Price identifica todas as situações de violação dos direitos dos trabalhadores e ameaças à sustentabilidade, e calcula o custo de compensar, prevenir e possivelmente até multar estas violações. Um par de jeans que custa 25 euros tem um preço “verdadeiro”, que inclui os custos externos, superior a 55 euros. Em 2020, a True Price aliou-se a um supermercado de Amesterdão, que passou a apresentar, para cada um dos seus produtos, dois preços: o “normal” e o verdadeiro. Um cliente deste supermercado pode escolher pagar o preço verdadeiro em vez do preço normal de um qualquer produto, sendo neste caso a diferença de preços canalizada para o financiamento de projetos que promovem a sustentabilidade. Mais importante, na medida em que as diferenças de preço revelam os custos externos, produtos com diferenças menores sugerem que os respetivos produtores são mais responsáveis do ponto de vista ambiental e social. Disponibilizar esta informação permite aos consumidores escolher produtos mais sustentáveis. E pode, em última análise, afetar as decisões das empresas. Espera-se que, se os consumidores e as empresas tiverem menos ilusões sobre quanto as coisas realmente custam, possam mudar a forma como gastam, vendem e produzem.

Quantificar externalidades e calcular preços verdadeiros é difícil. A True Price calculou o preço verdadeiro de algumas dezenas de produtos apenas. Muitos ficam de fora, como é o caso dos combustíveis fósseis. No início de março, estimava-se que a Europa importava da Rússia várias centenas de milhões de euros de gás natural por dia avaliado ao preço normal. Não temos uma estimativa para os custos externos da produção de gás russo, por isso não sabemos qual é o seu preço verdadeiro. Mas todos conhecemos as terríveis consequências da produção e, sobretudo, da utilização de combustíveis fósseis: o colapso do ecossistema, a elevação do nível da água do mar, os eventos climáticos extremos, que eventualmente resultam em sofrimento real e em perda de vidas humanas. É sempre difícil colocar um preço em tudo isto. Mas, numa altura em que a Rússia usa as receitas da venda de gás natural para manter a sua máquina de guerra, não será o preço verdadeiro do gás natural Russo simplesmente alto de mais?

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