Portugal: país de mentes independentes ou de mentes íntimas

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

 

Num país pequeno como Portugal é difícil manter uma mente independente e crítica das atitudes de outros, mais quando o estado é tão interventivo e presente na vida dos cidadãos, financiador e patrocinador de “funções”, “lugares”, apoios e subsídios, sem os quais muitos não conseguiam viver. Não significa que todos são maus, todos são “tachistas”. Não, pelo contrário, vemos cidadãos exemplares e com verdadeiro espírito de missão pública na vida política. Mas também vemos o oposto. Numa sociedade autêntica, ser independente e criticar atitudes (e não o carácter ou a pessoa) é razoável. Mas isso acontece pouco, verifica-se uma intimidade excessiva porque todos nós nos conhecemos uns aos outros. Temos dificuldade em criticarmos pois mantemos relações de cortesia e proximidade, conhecemos sempre alguém que conhece alguém. E a crítica á atitude é confundida muitas vezes com a critica á pessoa. E quando alguns criticam, só o fazem quando a pessoa criticada já está acabada, “já está na lama”. Se não vejamos: 

– O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa quis fazer parte da lista de honra do Candidato e Presidente do Benfica, quando este já era arguido e maior devedor do Novo banco. Teve que ser excluído pelo candidato, depois da polémica que se gerou; e quando conhecida agora a constituição do candidato, como arguido pela prática de alegados crimes (mas já suspeita antes), o apoiante fervoroso Presidente da CML foi o primeiro a “fugir do barco”. O que neste Presidente da CML também não é nada de novo.

– O Presidente do principal partido da oposição (que tem mais oposição interna do que aquela que faz), prometeu sempre separar o futebol da política mas nomeia como candidato (que afinal já não é candidato) o ex-jogador e treinador de futebol Português, treinador da Selecção Portuguesa de Futebol, ex presidente do FC Penafiel e comentador no programa Trio D’Ataque da RTP, como candidato a V. N. de Gaia?

– O putativo Presidente do banco de fomento e ex administrador do novo banco, é nomeado para a instituição gestora da bazuca quando (segundo a comunicação social) esteve ligado a operações bancárias consideradas desastrosas. Ninguém nada disse. Agora pairam sobre si dúvidas sobre o seu carácter e todos o atacam. São dúvidas e é inocente até prova em contrário, mas foi nomeado e desnomeado logo de seguida?

– Ou o ministro da administração interna depois de todas as críticas recebidas, e agora depois da publicação do relatório da Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI) sobre a actuação da PSP nos festejos do Sporting como campeão nacional de futebol. O relatório, pasme-se, vai ter de ser aprovado pelo ministério do MAI, se não, não é válido… Ou seja, as conclusões estão a ser analisadas pelo visado e, de acordo com os procedimentos, será alvo de um despacho do ministro visado e responsável pelo facto investigado, se é válido ou não?

– Temos uma deputada que tem um pai que fez um assalto ao Banco de Portugal em 1967 na Figueira da Foz e agora inquire (de forma profissional e muito bem preparada, diga-se) um dos maiores colecionadores de arte do País e do mundo no parlamento (e também Comendador da Ordem do Infante D. Henrique mas que também recebeu a Grã-Cruz da mesma Ordem e idolatrado por todos por partilhar no início do século XXI a sua coleção), por considerar que este fez o mesmo no valor de 1.000.000.000 de euros (pasme-se o valor), embora de forma menos violenta á CGD?

– Temos um ex secretário de estado, ex ministro, ex-administrador do BCP e da Caixa Geral de Depósitos, agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e adorado por todos na altura; mas que já foi condenado pela segunda vez, a primeira no processo face Oculta, agora na operação Marquês a dois anos de prisão efetiva (embora passível ainda de recurso)?

– Temos um ex Primeiro Ministro, ex Presidente da República, que todos adoravam e seguiam. Até perder o poder, quando só depois alguns começaram a suspeitar (e são só suspeitas) da sua transparência por causa de ações de um Banco gerido por um colega de partido, condenado na operação furacão; por outro lado, agora já ninguém quer ouvir as suas intervenções e ideias como antes?

– Temos um ex Presidente de um Banco (e acionista) considerado o “DDT” (sg a comunicação social) a quem “ninguém dizia que não” (mesmo o poder político), agora acossado e esquecido por todos, bem como acusado da prática de vários crimes?

– Finalmente, um engenheiro (de quem se questionou a forma como a licenciatura foi obtida), por todos adorado no passado, ex secretário de estado, ex Ministro e ex Primeiro Ministro, quase considerado a dada altura o “verdadeiro DDT” (mesmo numa altura em que já pairavam algumas dúvidas sobre os seu carácter, relembre-se o caso de Manuela Moura Guedes), agora esquecido e ostracizado, depois de ser constituído arguido e acusado na operação marquês?

– Ainda uma última dúvida, porque foi criado um banco de fomento (criando uma nova superestrutura cara e que vai levar muito tempo para ser eficiente) se temos uma CGD (bem liderada e gerida agora), especializada em gerir esta matéria? Porque não se questiona a decisão e o decisor?

Tenho de reconhecer (que até prova em contrário), o atual Primeiro Ministro se afastou delicadamente de todos estes factos (e bem!), não pairando sobre ele, nenhuma dúvida sobre o seu carácter ou honestidade, o que é algo quase impressionante no nosso País. Não temos a mesma ideologia, mas reconheço o seu esforço por fazer de Portugal um País melhor. Com os meios, empresários e o público que tem ao seu dispor.

Já Eça de Queiroz escrevia:” “Diz-se geralmente que, em Portugal, o público tem ideia de que o Governo deve fazer tudo, pensar em tudo, iniciar tudo: tira-se daqui a conclusão que somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade, e inaptos para a independência. A nossa pobreza relativa é atribuída a este hábito político e social de depender para tudo do Governo, e de volver constantemente as mãos e os olhos para ele como para uma Providência sempre presente.”

Somos um país de Mentes íntimas e não independentes !!!

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