Portugal, o pior no burnout?

Por Pedro Fontes Falcão, gestor e Director do Executive MBA do ISCTE

Um estudo recente desenvolvido pela Smallbusinessprices.co.uk apresenta Portugal como o país europeu com maior risco de burnout dos trabalhadores (de entre 26 países), seguidos pela Grécia, Lituânia e Hungria. Embora a metodologia do estudo não seja totalmente clara, deve levar-nos a refletir.

Há dados que apresentam em conjunto com estas conclusões e que estão relacionadas com o resultado.

Para começar, os 4 piores países são também os 4 piores em termos do índice mundial de felicidade de 2021 (fonte: Happiness Report, United Nations), o que mostra que a felicidade está naturalmente correlacionada com a probabilidade e o risco de se ter burnout. Portugal é o penúltimo, apenas atrás da Grécia. A felicidade resulta de diversos fatores, pelo que não é simples subir no ranking no curto-médio prazo, mas deveríamos tentar melhorar a situação no longo prazo.

Outro dado apresentado tem a ver com os salários dos países, sendo que Portugal tem um dos mais baixos. É também outro fator que pode levar ao burnout. Sendo que mais de um quinto dos portugueses empregados de outrem recebe o salário mínimo. Também aqui Portugal tem dificuldades em alterar a sua situação no curto-médio prazo, embora deva lutar para melhorar esta situação no longo prazo.

Acresce ainda o número de horas de trabalho por semana, onde Portugal também está no topo. Há uma clara correlação entre os países que sofrem mais de burnout e o número de horas trabalhadas, pelo que este é um tema que claramente precisa de ser melhorado. Aqui podem haver melhorias através da tão falada melhoria de produtividade, que passa por mais e melhor investimento mas também por uma melhoria das capacidades de gestão dos portugueses, para além de sistemas de redução de horários em certos empregos mas para os quais se tem de ter em conta o impacto nos custos das empresas. Outros temas como as estruturas de apoio às famílias, a falta de organização e disciplina que não permite uma boa gestão do tempo e a previsibilidade do horário de certos colaboradores (tema chave na causa do stress), entre outros, podem e devem ser trabalhados.

O estudo inclui também o work-life balance (fonte: OCDE), em que Portugal também é dos piores. Por curiosidade, a Islândia é de longe a pior neste fator, embora tenha dos níveis mais elevados de felicidade e salários.

O tema não é simples, nem de fácil e rápida resolução. Devemos ter vários fatores em conta, como os aqui referidos, mas que apenas terão efeitos positivos significativos no longo prazo (e apenas se se começar desde já a tomar as medidas certas).

Sendo assim, devemos no curto prazo estar atentos aos sinais de burnout dos colaboradores (atenção que é mais difícil de detetar sinais de burnout em quem está em trabalho remoto) e apoiar as pessoas que se possam encontrar nessas situações, pois as causas subjacentes vão demorar tempo a ser minoradas ou mesmo eliminadas.

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