Os verdadeiros heróis da pandemia

Por Nuno España, Gestor.

No Natal juntámos famílias e na Passagem de Ano ainda alguns amigos, para depois voltarmos a mergulhar num duro confinamento. Na verdade, há um ano que o nosso país é assombrado pela pandemia, há um ano que entramos e saímos de sucessivos estados de emergência e confinamentos, que esperamos que sejam sempre os últimos, de tão agressiva e intensa que é esta nova experiência, novidade para a esmagadora maioria de nós.

Olhando em retrospetiva, não deixa de me impressionar – e até comover – tudo aquilo que vivemos e fizemos. Chegámos até aqui porque, enquanto sociedade, nos unimos. “Nós” lutámos em nome de um bem comum, bem esse que era mais do que a soma dos “eus”.

Apesar das dificuldades, dos erros e das falhas, do cansaço e desgaste totalmente compreensíveis, e até da nossa teimosia em apontar o dedo e explorar fracassos, considero que temos sido incríveis. Não poderia sentir mais orgulho, mais uma vez, em ser português.

Chegou a altura de celebrar as conquistas e de enaltecer todos os heróis desta história. Ora vejamos:

  • Quando foi para ficar em casa, ficámos (e da primeira vez fomos os verdadeiros impulsionadores);
  • Quando nos pediram que usássemos mascaras, nos desinfetássemos vezes sem conta e cumpríssemos o distanciamento social, aprendemos, ainda que gradualmente, a fazê-lo;
  • Quando, de um dia para o outro, nos pediram que fechássemos os nossos negócios, muitos deles o único meio de subsistência de milhares de famílias, fizemo-lo e fomos capazes de nos reinventar;
  • Quando foi pedido às escolas e aos professores que, em tempo recorde e sem apoio algum, passassem a ensinar à distância, todos o fizeram. E aqui também as famílias tiveram um papel exímio – na verdade, todos aprendemos a ser, para além de pais, avós, irmãos, trabalhadores, também assistentes dos professores em casa;
  • Quando aos profissionais de saúde exigiram trabalhar o dobro ou triplo, sobretudo durante os meses de janeiro e fevereiro, todos, embora muito cansados, responderam sem hesitar, com forças renovadas.

Chegou a altura de desconfinar.

É agora o momento de as instituições públicas e forças políticas entrarem em ação. Fazerem aquilo que realmente foram chamadas a fazer. Agora, mais do que nunca, devem deixar de parte as guerras, lutas de poder e os idealismos do costume. Há um bem maior que precisa de ser cuidado e tratado: “Nós”!

Milhares de pessoas foram privadas de trabalhar durante estes meses. Esses milhares precisam que se fomente o desenvolvimento, mais do que o crescimento; precisam que se continue a investir, de forma a fazer tudo aquilo que ficou por fazer no último ano – investir em inovação, investigação, tecnologia. É preciso investir na arte e na cultura do nosso país (e que tanta falta faz). É imperativo que apostem em setores como a agricultura e o turismo, que tem um peso tão relevante para o nosso país e onde somos tão bons. É crucial retirar lições e repensar prioridades, nomeadamente nos sistemas de ensino e de saúde, que se revelaram tão essenciais. Não podemos descuidar as capacidades formativas dos nossos professores. E também não podemos desvalorizar a prevenção, o rastreio, o diagnóstico precoce, o tratamento e seguimento de doenças crónicas, nem devemos deixar de valorizar e distinguir todos aqueles que estiveram na famosa “linha da frente” durante meses a fio, sem nunca se queixar.

É o momento de todas as forças decisoras se entregarem e retribuírem a entrega e confiança de milhares de pessoas, com o mesmo respeito, dignidade e dedicação.

Cada vez tenho mais certezas de que a forma como todos atuarmos será a forma como seremos recordados. Está nas nossas mãos cada um trabalhar para ser aquilo que foi chamado a ser. Muitos foram os heróis reconhecidos nesta pandemia. Não descurando o merecido reconhecimento em relação a muitas classes, não poderia ter maior esperança nas recentes palavras do Papa Francisco sobre a pandemia: “No fim, oxalá já não existam ‘os outros’, mas apenas um ‘nós’”.

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