“Os Pro bono”

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati.

“Exmo. Sr. especialista de epidemiologia /virologia / economista / política /comentador: vai passar agora a trabalhar de forma gratuita, sem receber salário nos próximos dois anos, pois está a realizar uma tarefa de interesse público e, portanto, pode trabalhar gratuitamente”!

Foi isto que escutei por diversas vezes na televisão, na rádio, nos jornais, nas redes sociais, dito por inúmeros “especialistas” sobre o programa de I&D das vacinas, assim como a prestação de cuidados de saúde nos hospitais privados, etc, etc, etc. Disparates e monstruosidades sobre o setor privado da saúde, afirmações ignorantes sobre enriquecimento da indústria farmacêutica, violação de patentes, custos exagerados e milionários de tratamento de doentes no privado (o que é falso, pois o custo de tratamento de um doente covid num hospital privado custa menos ao Estado que num hospital público).

Na essência, portanto, defendemos a frase inicial com que comecei este texto. Mas só o fazemos para o setor privado da saúde? Porque não fazê-lo para todos os outros setores, privados ou públicos, que têm o interesse público, a saúde pública e o desígnio social do Estado como supremo objetivo? Porque não trabalham também estes, individuais ou coletivos, de forma gratuita e sem remuneração? Porque é exatamente isso que os “ditos especialistas” defendem, que as empresas deste setor, que investiram biliões de euros a investigar uma vacina, ou a tratar doentes de forma cuidada, o façam “de borla” em prol do interesse público. Mas não os vejo a oferecer a sua força de trabalho e o seu tempo de forma gratuita, porque será? Até o próprio presidente do mecanismo Covax o afirmou, mas será que também trabalha pro bono? Acho mesmo que não e que a sua remuneração deve ser uma “enormidade”. E afirmam isto porque pimenta … é refresco!

Bem sei que existe, em Portugal, um preconceito contra o setor privado, contra a remuneração do capital e do investimento que gera emprego e paga impostos. Mas o “Estado vive” exatamente destes impostos que cobra, financia-se através de taxas, taxinhas e impostos. Este empreendedorismo nunca é reconhecido, aquele que assume o risco (porque nem sempre os negócios correm bem), que não se financia na banca sustentada pelos dinheiros públicos, mas no esforço individual dos seus empresários. Uma economia nunca pode ser forte se não tiver um setor privado forte, inovador, exportador, investidor, gerado de emprego bem remunerado…

Tudo isto para voltar a esclarecer os “ditos especialistas”, que nunca devem ter gerido nada na sua vida, muito menos investido empresarialmente: se uma empresa (seja de que área for) não tiver lucro, não pode pagar salários, impostos, investir em inovação, pagar aos seus fornecedores, construir fábricas. A vacina contra a covid foi lançada em menos de um ano (os medicamentos demoram mais de oito anos a chegar ao mercado), com muito investimento por parte da Indústria farmacêutica (muitos biliões de euros, mais do que o Estado português vai injetar na economia através da “bazuca”), desse setor “privado malfeitor” que tenta roubar os dinheiros públicos mas que vai salvar milhões de vidas. Esquecem-se que o investimento público em Portugal para I&D não dava sequer para comprar as “pipetas” utilizadas na investigação da vacina. E que os laboratórios públicos nunca conseguiriam ter a tecnologia e o know-how para fabricar estas mesmas vacinas. Salvo se houvesse um gigante investimento de capex e nos recursos humanos, mas que o Estado nunca decidiu (nem decidirá) fazer.

Violar patentes seja do que for, nomeadamente de uma vacina, é ilegal, viola os princípios básicos da propriedade intelectual, gera nos investidores a incerteza e desconfiança sobre os seus investimentos, pelo que deixam de investir na IF e vão investir noutro setor. Ora, se deixarem de investir, deixa de haver investigação e inovação, ou seja, deixa de haver vacinas para a próxima pandemia. Podemos sempre pensar no modelo chinês ou no russo, mas até estes têm objetivos estratégicos de recompensa (influência e/ou lucro). Ao contrário das empresas tradicionais de IF, pois todas as empresas que fabricam vacinas já referiram que não vão ganhar dinheiro com as mesmas vacinas enquanto o estado de pandemia existir; bem como aceitaram partilhar o know how descoberto para o fabrico das mesmas, com outras empresas de IF devidamente preparadas (para aumentar a capacidade).

Aos “senhores especialistas”, a minha recomendação é de que um bom líder gere pelo exemplo, portanto, antes de sugerirem o que quer que seja neste setor, ofereçam as suas poupanças ao Estado português para promover a investigação da próxima vacina e/ou tratamento necessário, aproveitem também para aceitar trabalhar pro bono, pois também devem defender o interesse público!

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