Os porta bandeiras

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Respeito e admiro muitos políticos e os seus partidos, todos aqueles que democraticamente representam uma fatia da população Portuguesa. Não gosto dos extremos, da extrema direita aos trotskistas da esquerda, mas respeito-os e aceito que em convivência democrática, têm o seu papel na democracia expressa no voto. O que realmente não gosto, nem respeito são os “porta bandeiras”. Aquele conjunto de actores que viveram sempre à custa da política, ou seja à nossa custa. Que dizem que são cidadãos desinteressados da política mas apenas interessados em ajudar ao desenvolvimento do país. Carregam “bandeiras” ideológicas fáceis de aceitar e “comprar” pelo povo que vota, como nós. Prometem acabar com os ricos na luta “contra o grande capital” (mas não informam que assim aumentam o número de pobres, pois querem acabar com os empregadores, os ditos “patrões”). Que se julgam os donos da moralidade, dos valores da democracia, da luta pelo equilíbrio e manutenção do elevador social, dos valores de Abril (como alguns referem sempre que discursam)…

Vivem como burgueses à custa de reformas douradas ou em cargos originados pelo cartão do partido, não sujeitos a escrutínio, de indivíduos que não teriam lugar a nenhuma função meritocrática no sector privado. Apenas aparecem como comentadores da comunicação social ou empregados públicos por serem o Senhor(a) fulano(a) de tal do partido X. Alguns que já têm inclusive experiência multipartidária, já se candidataram pelo BE, PS e agora pelo Chega. Ou de ex presidentes de partidos que não sabem o que é a pobreza, são conselheiros de estado, mas falam muito de pobres sem saber sequer o que é a pobreza (talvez porque gostem tanto deles e os queiram manter assim). Ou aqueles que acham que a riqueza se cria a pagar impostos e não a criar e dinamizar empresas, portanto sugerem ir buscar o  dinheiro onde “ele existe”, aos ricos e acabar com eles (sim, acabar com os mesmos que criam riqueza). Ou políticos antigos, ex diplomatas, ex deputados europeus que se acham donos da liberdade e da integridade, mas que já militaram em partidos trotskistas e extremistas. Ou daqueles que só se lembram de Passos Coelho sem serem honestos intelectualmente e referirem que antes dele, estava um PM chamado Sócrates que arruinou as finanças públicas do país. Ou de um ex presidente da câmara que perdendo as eleições autárquicas referiu que iria voltar à sua vida profissional, mas que afinal não tem, e já está nas listas como candidato a deputado em lugar elegível. Ou da presidente de um partido que não acredita nos princípios de extrema esquerda, princípios fundadores do seu partido, mas não se afasta da liderança nem os muda. Ou de um ex ministro que definiu todo o processo para extinguir o SEF mas antes de sair, pelo seu próprio pé pedindo a demissão, premiou o mesmo SEF com medalha de ouro por serviços distintos (certamente no aeroporto de Lisboa, acrescento).

Podemos também falar das filhas de um “antigo lutador contra a ditadura” mas que o fez sequestrando um voo comercial da TAP, do paquete Santa Maria, ocupando a herdade da torre bela e assaltando a sucursal do Banco de Portugal na Figueira da Foz. Filhas que vivem da política e perseguem banqueiros (e bem) pela sua falta de escrúpulos nos “assaltos” que fizeram ás instituições que presidiram (curioso como um assalto a um banco pode ter visões e classificações diferentes). Ainda de uma jovem deputada de um partido que recebe cerca de 3.600€ pela função para a qual foi eleita (mas nunca deve ter falado sequer no parlamento) e se manifesta contra o aumento do salário mínimo. Mas também um líder de um partido que defende a democracia excepto o exercício da democracia interna no seu partido, refugiando-se em esquemas e regras cobardes que só ao próprio servem para perpetuar o poder. Ou de um candidato a presidente de um partido que criticou o líder atual do mesmo quando há apenas 3 anos, num cinismo político notável, afirmava que só o mesmo podia levar o partido ao governo. E podia continuar sem parar.

O que quero reiterar é que temos os políticos que merecemos pois estas incongruências e imoralidades destes “porta bandeiras” estão aos olhos de todos , mas mesmo assim continuamos a permitir que ocupem o espaço público e recebam salários dos nossos impostos. Por isso mesmo achamos que são todos iguais e maus (o que não é verdade pois existem políticos com espírito de missão e respeito pela “res publica”), desligando-nos da vida política através da abstenção. Ou pior, escolhendo os extremos ideológicos que se aproveitam da insatisfação e desilusão das pessoas, com frases e ideias simples, mas destrutivas.

Platão definiu bem esta letargia intelectual em que vivemos:” o preço a pagar pela não participação na política é seres governado por quem é inferior. Portanto vote em quem acredita ou lhe possa dar alguma esperança, leia sempre o programa político desse partido, mas nunca se deixe ser “governado por quem é inferior”!

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