Os desafios da liderança na nova era

Por Fernando Neves de Almeida, Partner da Boyden.

Vivemos tempos desafiantes, em que os líderes são confrontados com realidades emergentes, que há um par de anos mais não eram do que futurologia que alguns gurus da gestão abordavam. Alguns desses desafios vêm da pressão social cada vez maior sobre as organizações e outros porque a evolução tecnológica é tão rápida que uma boa solução hoje, literalmente, não serve amanhã. Do lado da pressão social, temas como a diversidade e inclusão, sustentabilidade e responsabilidade social são áreas em que o futuro é hoje. Do lado da evolução tecnológica, questões como o agile management, transformação digital e transformação cultural são assuntos que mobilizam a atenção dos líderes e, diria mesmo, o seu desempenho nessas áreas condiciona o seu sucesso.

Quando falamos em diversidade e inclusão, para além do politicamente correto do tema, os CEO sabem que a sua existência melhora em muito a qualidade das decisões estratégicas e operacionais tomadas nas organizações. A diversidade, sendo ela de género, orientação sexual, raça, credo ou outras, é sempre acompanhada de maneiras de pensar diferentes, distintas perspetivas de análise, que enriquecem qualquer processo de tomada de decisão e implementação. E é isso que os gestores começam a descobrir: para além do socialmente desejável, os resultados organizacionais beneficiam. Assim, lidar bem com esta realidade torna-se fundamental para quem aspire a um caminho de sucesso na gestão. Saber recrutar na diversidade, saber reter pessoas com naturezas muito distintas, conseguir motivar pessoas com valores diferentes e saber construir equipas complementares tendo em consideração os diferentes contributos de cada um.

Também se percebeu, até já vertido na política de remunerações das comissões executivas de muitas organizações, que o tema da sustentabilidade tem de ser endereçado. O amanhã existe e o tipo de decisões que tomamos hoje compromete esse futuro. Durante muito tempo, muitas das decisões tomadas nas grandes empresas eram-no como se o amanhã fosse garantido e igual ao hoje. Agora não; se há algo que temos a certeza, é que o amanhã vai ser diferente e que queremos continuar por cá para sobreviver com êxito. Finalmente, no que diz respeito à responsabilidade social, a evolução cultural tem, felizmente, feito evoluir uma mentalidade, essencialmente, capitalista mais imediata para uma consciência real de que as organizações têm de conseguir contribuir “realmente” para o seu meio envolvente, para lá dos dividendos distribuídos aos seus acionistas.

Em suma, a pressão social torna os fatores de inclusão e diversidade, sustentabilidade e responsabilidade social no centro das práticas e preocupações da liderança. Já a evolução tecnológica obriga os líderes da nova era a serem particularmente adaptáveis e a aceitarem que as melhores mudanças se vão fazendo por experimentações localizadas e graduais. Os tempos em que os projetos de mudança tecnológica eram implementados de forma global e orgânica já eram. Hoje a tecnologia permite e exige uma flexibilidade e rapidez que nunca antes pensámos ir existir. Esta mentalidade mais flexível por parte dos líderes, que implica mesmo conseguir mudar paradigmas mentais em pouco tempo, é hoje uma exigência para o líder da nova era. Já para não falar das competências que se exigem para pensar a gestão numa ótica digital. A transformação digital é uma realidade que veio para ficar. Que ninguém duvide.

Finalmente, uma última realidade que é um grande desafio para os líderes da nova era, que nada tem a ver com tecnologia, mas que decorre totalmente dela, é a capacidade de conduzir transformações culturais, por forma a serem capazes de manter organizações cada vez mais flexíveis, distribuídas, fluidas e diversas, com a coesão social necessária, com o sentimento de pertença vivo, com os níveis de motivação adequados.

Nunca os desafios da liderança foram tão interessantes. Nunca os tempos foram tão desafiantes.

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