Os “bebés da pandemia” e o mercado de trabalho

Por Ana Côrte-Real, Diretora MBA Executivo, Católica Porto Business School

Hoje dedico este artigo a todos os recém-licenciados, aos que se encontram à procura da primeira experiência profissional. Aos bebés que querem ingressar no mundo profissional.

E começo pelo fim: coragem! Acreditem em vocês e não se deixem desmotivar!

Na verdade, estes jovens, tal como aconteceu em anteriores crises, têm o azar de se estarem a candidatar ao mercado de trabalho precisamente num contexto de contração económica fruto da pandemia. Se a procura pelo 1º emprego nunca foi fácil neste momento é um desafio ainda maior. Ao longo do último ano houve avanços extraordinários na cultura organizacional das empresas, no uso de tecnologia e relacionamento das empresas com fornecedores, colaboradores e concorrentes. Esse movimento é muito difícil de acompanhar, do ponto de vista da formação. A velocidade é tão grande que a maior parte dos profissionais só vai aprender na prática a dominar as muitas linguagens que hoje fazem parte do mundo dos negócios. Pelo que é importante que o mundo empresarial perceba o enorme impacto que pode ter nestes jovens, que enfrentam tantas frentes. Um impacto psicológico que poderá vaticinar o futuro profissional de uma pessoa.

Vamos colocar-nos no lugar destes jovens – notem que me estou a colocar nos jovens com atitude de trabalho, responsáveis, que investiram nos seus percursos, que são curiosos, que estão ávidos de aprender e abertos aos desafios. Jovens cujos pais investiram na educação dos filhos, muitos com dificuldades, mas que consideram a educação o melhor investimento. Sei, naturalmente, que há uns tantos que acham que a vida se vai vivendo a passar pelos pingos da chuva. Esses não são os que aqui retrato.

Estes jovens, dos quais lhes falo, começam a lidar com a frustração dos recrutamentos supostamente para perfis juniores, mas que solicitam 2 anos de experiência… Um certo paradoxo! Depois, lidam com o facto de responderem a anúncios de emprego e muitas vezes não receberem resposta: a não resposta talvez seja muito mais difícil de gerir do que um “Não”. Segue-se lidarem com um “Não”, mas sem saberem o porquê…  E por vezes um “Sim”.

Na minha opinião, com base nos muitos alunos que me vão passando pelas “mãos” e por muitos outros, destas três situações, a que mais causa frustração aos nossos futuros profissionais é a não resposta. Do outro lado da linha, ouço as entidades empregadoras a justificarem-se com o número de candidaturas. Não ponho em causa a bondade deste argumento.  Mas tal, não me faz deixar de desejar que esta situação não ocorresse.

Estamos a gerir pessoas numa fase muito crítica do seu percurso. A repetição de não respostas, ao fim de algum tempo, pode ter um impacto desastroso nestes jovens, alguns cheios de potencial. Começam a duvidar de si próprios, começam a pensar que não têm valor… começam a perder energia e a esmorecerem. Uma justificação, uma resposta, pode fazer a diferença, até educativa, no sentido de aceitarem que não é uma questão de valor, mas de fit à função.

Mas, se até aqui falo da não resposta… não deixa de me preocupar, da mesma forma, o “Sim”. Nada mais gratificante ouvi-los a gritarem “Arranjei emprego”! Mas depois vem a fase do acolhimento nas organizações: receber um recém-licenciado é como termos um filho. Um bebé não nasce autónomo, não nasce educado, consome muito tempo, muita dedicação, paciência e amor. Ora um jovem que entre numa empresa será um bebé dessa empresa. Não é por acaso que se diz que há empresas que são boas escolas e outras que “matam” talentos.

Vamos cuidar destes “bebés”. E este cuidar é, de facto, responsabilidade de todos. Porque estes bebés da pandemia não nasceram, como muitos outros, num berço d’Ouro.

Vamos dar-lhes respostas. Respostas quando se candidatam e não são aceites. Respostas quando não são aceites para lhes explicar o porquê. Repostas quando lhes dizemos “Sim” mas ainda têm muitas perguntas a fazer.  Vamos ser mentores dos que amanhã serão o valor do nosso país. Vamos ajudá-los a confiarem em si e na vida.

 

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