O sistema democrático está a mudar

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

As eleições francesas (que apenas comento como exemplo e por ser Europeu) estão a demonstrar o quão o mundo está a mudar de forma BANI. Os eleitores da extrema esquerda (os eleitores de Mélenchon que são mais de 7,7 milhões de Franceses) não sabem de forma óbvia se votam em Macron ou em Le Pen da extrema direita. Pasme-se… talvez porque os temas populistas mudaram e as clivagens aumentaram. Os extremos aproximaram-se e o modelo “esquerda / direita” está a desaparecer, aumentando as clivagens entre globalização e nacionalismo, pobres e ricos, frexit light (Brexit francês) ou União Europeia, livre comércio ou protecionismo, militarização ou desmilitarização, fecho ou abertura de fronteiras aos migrantes, estado social ou estado liberal, bloco ocidente ou bloco oriente (China, Índia e Rússia), sociedade fechada ou uma sociedade aberta e cosmopolita… A ideologia e os valores subjacentes parece que deixaram de interessar e os eleitores estão revoltados (com ou sem coletes amarelos). Os eleitores votam mais no que não querem para o futuro político dos seus países do que o projeto de governação que idealizam.

Já tinha acontecido o mesmo nos EUA com Trump ou na Alemanha com uma “coligação semáforo” e Olaf Scholz como chanceler (liderando Sociais-democratas, Verdes e liberais) com um governo de “mínimo denominador comum”. O mesmo na Hungria com a vitória do nacionalista anti europeísta Viktor Orbán, da União Cívica Húngara (Fidezs), que reforça o título de líder europeu há mais tempo à frente do governo. Ou mesmo o regime Putiniano que apoia financeiramente, de forma indistinta, partidos comunistas de extrema esquerda ou de extrema direita.

Os partidos políticos e a sociedade têm de se voltar a reorganizar, a negociar um novo contrato social, sob pena de se não o fizer, este radicalismo paradoxal, levar à vitória do populismo e da promessa fácil. Não pelo projeto político que apresentam mas pelas soluções radicais que satisfazem as clivagens existentes e pela promessa de mudança. Talvez Bismarck comece a ter razão, “Fazer política em cima de princípios é o mesmo que caminhar por uma trilha estreita na floresta, carregando uma vara longa entre os dentes.”, mas temos de fazer ser mais rápidos na transformação social e política que pretendemos para manter a democracia que tanto privilegiamos e pela qual lutámos.

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