O propósito

Por Maria João Guedes, Professora do ISEG, Universidade de Lisboa, co-coordenadora do Women on Boards – Portugal e do XLAB-Behavioural Research Lab

Nos últimos anos assistimos a uma mudança na orientação da corporate governance das empresas, passando de uma abordagem dominada pelos acionistas para uma abordagem dominada pelas partes interessadas. Ou seja, o objetivo das empresas deixou de ser apenas gerar lucros e distribuição do valor criado a quem investiu a sua riqueza na empresa. Devem comportar-se de um modo responsável não só perante os seus investidores, mas de todas as partes interessadas (trabalhadores, clientes, fornecedores, sociedade em geral), conciliando os interesses de todos eles.

Um dos marcos desta mudança de paradigma ocorreu quando um grupo de 181 CEOs se sentou numa “mesa redonda” e assinou uma carta de compromisso de adesão onde reconhecem que cada parte interessada (“our stakeholders”) é essencial e se comprometem a entregar valor a todos eles, pois só assim podem contribuir para o sucesso das suas empresas, das comunidades e do próprio país.

Esta declaração de compromisso assinala, assim, esta nova perspetiva social e económica das empresas. Estas têm agora de tomar as decisões estratégicas e de se comportar de um modo socialmente responsável. Têm de prestar contas não só aos seus investidores, mas à sociedade em geral. O impacto das decisões e ações das empresas afeta não só a empresa, mas a comunidade onde está inserida e o próprio país. É uma declaração de compromisso arrojada, mas será esta visão partilhada pelos investidores? Esta declaração de compromisso foi feita a título individual e não em nome das empresas.  É uma declaração a título individual e, como tal, não vincula as empresas. Não representa a vontade dos acionistas pois foi assinada sem a consulta dos conselhos de administração onde estas/estes CEOs exercem as suas funções.

Mesmo sem ser vinculativa, esta declaração conjunta serve como uma reflexão séria e importante sobre o propósito das empresas e quais podem/devem ser os novos rumos para a corporate governance. Mostra que se houver compromisso e entendimento do que deve ser o novo propósito das empresas, mudanças importantes e sustentáveis vão certamente ocorrer. Mas não se deve esquecer o básico: nenhuma empresa existe sem proprietários. Por isso, deve-se conhecer e perceber qual a estrutura de propriedade das empresas, desde os investidores individuais aos institucionais, das famílias aos governos. E perguntar-lhes se partilham deste compromisso e que tipo de participação estão dispostos a ter neste (novo) compromisso das suas empresas.

Espera-se, desde modo, uma corporate governance séria e efetiva, que possa  contribuir para melhorar a responsabilidade social da empresa e alinhar os interesses de todas as partes interessadas. As empresas devem compreender se e como incorporar as reivindicações e interesses (às vezes divergentes) de todas elas. Isto é um desafio mas o propósito é claro: as empresas devem ser  responsáveis e sustentáveis, e entregar riqueza a quem nelas investiu.

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