O peru nunca vota a favor do natal

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati.

Há uns dias, um amigo proferia esta frase, com alguma seriedade sobre a legislação laboral. E tem razão, pois, de forma simplista classificou a ideologia laboral em Portugal. Será inesperado neste país ver partidos do arco da governação flexibilizar a legislação laboral, mesmo que no médio/longo prazo (como em alguns países do mundo) se verifiquem maior empregabilidade e remunerações mais elevadas. Inclusive uma retoma de empregabilidade nas saídas da crise, com maior consumo, maior investimento, adaptação a sazonalidade do emprego e logo uma economia mais dinâmica. Mas nós, os eleitores, não votamos no longo prazo, portanto não votamos de forma disseminada num partido liberal que pense no seu bem-estar mas que gera risco para a sua “tranquilidade laboral” no curto prazo (pelo menos nos que são dispensáveis pelas empresas). Queremos a mão paternalista social da legislação. Preferimos receber pouco mas ter emprego (mesmo precário) do que o oposto. Daí o sonho da função pública e a sua capacidade de atração pela estabilidade do emprego e outros direitos.

Defendo a flexibilização da legislação laboral mas nunca defenderei o trabalho ilegal. Falamos das empresas e da sua capacidade de inserção dos mais diversos perfis e faixas demográficas no mercado de trabalho através das suas necessidades. Com uma legislação de trabalho como a nossa, a decisão de não recrutar, ou recorrer a outsourcing, ou recorrer à precariedade de trabalho, ou recorrer aos contratos a prazo, é uma realidade que se verifica desde há muitos anos. Acrescido pela nova forma de trabalho remoto para a qual o mundo não estava preparado. E se isso pode ser consequência da “ganância” dos empresários (o que critico), também pode ser consequência da incapacidade de despedir um inútil se ele não for formalmente um inútil, mesmo sem resultados. Compreendo que existam organizações de trabalhadores que vivem desta luta entre capital e trabalho, que deixariam de ter razão de existir tão interventivamente se não tivéssemos uma legislação tão rígida e garantística que não promove o mérito. Ou seja, nunca irão defender, pois “o peru não é a favor, nem nunca defenderá o natal”!

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