O mundo blocal está a nascer, matando a globalização!

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

A China fabricou o seu primeiro smartphone e no futuro, já anunciou que vai produzir o seu primeiro carro! O grande desafio das marcas globais será a Blocalização. Ou não! Neste momento encomendar um automóvel demora quase um ano para entrega, os novos smartphones esgotam rapidamente por falta de componentes electrónicos… Porque os constrangimentos logísticos, a falta de investimento durante a pandemia, o aumento de consumo de produtos e redução de serviços, aumentos dos custos das matérias primas, aumento dos custos dos transportes, dependência excessiva de alguns mercados fabricantes de componentes, entre outros; está a provocar que esta estratégia de fabrico “offshoring” e partilhado não funciona mais.

Portanto passará cada vez mais a ser “near shoring” e blocal. Pois esta partilha de know-how e conhecimento levou a que as empresas, nomeadamente as chinesas que fabricam componentes electrónicos para terceiros, passaram a ter o conhecimento para produzir smartphones e têm o mercado automóvel na mira. O que fará com que no futuro, estes investimentos podem mudar profundamente as relações comerciais com os Estados Unidos. É o caso da Foxconn, a empresa de Taiwan que fabrica 70% dos componentes dos dispositivos da Apple. No 4º trimestre de 2021, anunciou os planos para produzir 3 veículos eléctricos próprios numa parceria com a Yulon, uma fábrica automóvel taiwanesa.  Entretanto já assinou 2 acordos com duas companhias startups dos USA no mercado dos veículos eléctricos, a Lordstown Motors e a Fisker, de forma a adquirir conhecimento e inovação. O investimento da Foxconn é um sinal da blocalização do mundo e reverte os papéis no comércio automóvel, que tem sido claramente dominado pelas empresas europeias, americanas e japonesas. E este conceito do automóvel mudou, pois no futuro, os carros, serão “smartphones com rodas”, mas que têm de ter tecnologia segura e fiável para cumprir a tarefa a que se propõem. O que coloca a China, especialista na produção de baterias eléctricas para terceiros, nos sistemas de computação e na personalização, com uma vantagem estratégica incrível pois já está familiarizada com estes conceitos no fabrico de produtos electrónicos para terceiros. Resultado da globalização e partilha de know how no fabrico.

A Huawei, Tencent e Alibaba são algumas das gigantes  que já assinaram acordos para o desenvolvimento de software e serviços com fabricantes de carros. E recordemos que a Xiaomi é a marca de smartphones mais vendida no mundo e que irá também entrar neste mercado. Ou seja o mundo será blocal, a tecnologia e a inovação, a par do mundo digital (como reflexo da cibersegurança), também o serão. Cada bloco tenderá a destacar-se pelo nível de inovação ou exclusividade de recursos minerais e agrícolas, como forma de se tornarem multibloco. Se não o pretenderem, os blocos serão suficientes pela sua dimensão e escala para que cada um seja autónomo.

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