O direito do Direito a férias!

Por Ana Côrte-Real, Diretora MBA Executivo, Católica Porto Business School

Férias: é sempre bom relembrar que férias não são um luxo, não são para quem não quer trabalhar, não são algo a eliminar. As férias são absolutamente indispensáveis.

Olhemos para o enquadramento legal das férias, mais precisamente no n.º 4 do artigo 237º do Código do Trabalho, onde se lê: “O direito a férias deve ser exercido de modo a proporcionar ao trabalhador a recuperação física e psíquica, condições de disponibilidade pessoal, integração na vida familiar e participação social e cultural”.

Pergunto: quem é que não precisa de recuperação física e psíquica após um ano de trabalho? Quem não precisa de tempo para si e para os seus? Ainda mais num ano particularmente exigente como o que passámos? Atrevo-me a dizer que ninguém!

Mas, na verdade, à minha volta e olhando para mim mesma, vejo esta questão relativamente ameaçada.

A conectividade permanente não nos facilita a vida.

Se temos cargos de liderança, temos de estar sempre “on”. Se não temos… temos de estar sempre “on”. E se temos projetos pessoais… ui, aí, parece não haver salvação: o tempo é nosso, o projeto é nosso, pelo que não nos podemos dar ao luxo de tirar férias do que é, aparentemente, para nosso benefício.

Sabendo que não há soluções perfeitas, atrevo-me apenas a estimular uma reflexão sobre esta questão. Sei que há exceções, situações urgentes e incontornáveis. Mas não esqueçamos que as férias são precisas. As entidades empregadoras devem garantir as férias aos seus colaboradores. Os colaboradores devem garantir as férias a si próprios. Os empreendedores devem obrigar-se a tirarem férias dos projetos próprios.

A relação das férias com a promoção da saúde mental não nos deixa espaço para dúvidas. Recomendo a leitura do artigo de Carla Clarck, How to Maximize Vacation Health Benefits and Avoid Exhaustion, onde são sistematizados de forma clara os benefícios das férias: aumento da satisfação pessoal, melhoria da qualidade do sono, humor, gestão das emoções, pressão arterial, reforço da criatividade. Não menos importante, no final das férias, a nossa produtividade sai melhorada, pois os níveis de energia e motivação são reforçados.

Mas, então, porque parece tão difícil para alguns de nós PARARMOS? Porque é que até parece “pecado” dizermos que estamos de férias e que nos vamos desligar dos e-mails e afins?

Talvez porque tenhamos algumas crenças que não nos deixam ler a situação com os olhos certos. Talvez porque achemos que não nos podemos dar a esse luxo. Talvez porque achemos que somos insubstituíveis. Talvez porque achemos que se o fizermos não somos bons profissionais. Talvez porque achemos que daremos uma imagem errada. Talvez porque achemos que parar 15 dias é comprometer tudo. Talvez porque não tenhamos vida para além do trabalho… (que susto!). Talvez, simplesmente, porque não somos capazes de desafiar as nossas crenças e dos nos colocarmos em primeiro lugar, não como profissionais, mas como seres humanos. Não para termos mais coisas, mas para sermos mais “coisas”.

Chegados aqui, se por acaso somos uns destes que não conseguem tirar férias…pelo menos sejamos daqueles que deixam os outros tirar férias!

Boas férias!

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