O/A que vem de fora

Por Clara Raposo, Professora de Finanças e Presidente do ISEG

Escrevo um pouco mais a Norte. Hoje estou num simpósio em Oxford. Esta curta visita traz-me memórias, revisitadas sob uma perspetiva que só a distância no tempo nos permite ver (ou, pelo menos, concluir).

Vivi quase oito anos em Inglaterra, mesmo até ao virar do milénio. Já era adulta. Embora, se fosse hoje, talvez se dissesse que era uma “miúda”, de acordo com a atual tendência para infantilizar um pouco os jovens adultos do novo milénio, num tom algo protetor, mas também condescendente – que, pessoalmente, não me atrai. Mas volto atrás, de novo.

A minha “internacionalização” começou como a de muitos portugueses da minha geração e das seguintes, a estudar fora. Primeiro um mestrado e depois um doutoramento, este último na LBS. Mas depois de estudar, e de Londres, o meu primeiro emprego foi na Universidade de Oxford. Talvez o sonho de muitos. Independência e abertura de horizontes num ambiente muito desafiante, porque nesta universidade pertencemos a uma área do conhecimento (no meu caso, à business school) mas também a um college em que representamos a nossa área científica (management studies) junto dos fellows das outras áreas, tão variadas quanto filosofia, escultura, medicina ou química.

Para além do conhecimento gerado e da experiência de vida, houve um aspeto inesperado, que me surpreendeu – já na London Business School tinha sido assim. Fui sempre ouvida e consultada sobre todos os assuntos da vida académica com imensa atenção e respeito. A “miúda”, sim. Ouvida exatamente com a mesma atenção com que se ouvia um professor emérito ou um visitante distinto. Era assim que funcionava. Aprendemos todos a ouvir.

A surpresa que eu tive não foi tida no momento, mas sim mais tarde, quando regressei a Portugal. Nas reuniões só falava o chefe, em geral. A definição de “respeito” era outra. Felizmente, o fascínio nacional pelo que vem de fora permitiu-me sempre alguma ousadia na partilha da minha opinião e no avançar de sugestões. Mas foram ousadias e não normalidades. Com o tempo, as coisas têm evoluído e para isso também tem contribuído o regresso de alguns “estrangeirados”. O/A que vem de fora pode ajudar a mudar, por dentro, algumas práticas.

Fala-se em diversidade e em inclusão e em muito “tick the box” para ficarmos bem no retrato. Mas, cá dentro, quando o meu cérebro se cruza com o pulsar do meu coração, sei bem onde está a verdadeira liberdade e igualdade de oportunidades e reconhecimento. O/A que vem de fora não é para endeusar nem para decorar, é para trabalhar, para fazer, e para contribuir para soluções diferentes. E, hoje, aqui estou de novo, entre distintos pares, num diálogo sério.  Hoje, aqui, sou agora a que vem de fora.

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