Mundo BIBI na “morte” da Globalização!

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

A escalada da beligerância na EuroÁsia, com a guerra causada pela Rússia com a invasão ilegal da Ucrânia e agora entre os EUA e a China por causa de Taiwan, fazem-nos pensar que a década atual vai ser marcada pelo esgotar das soluções diplomáticas. As instituições mundiais deixaram de o ser e o mundo passou a BIBI (Beligerante, Irresponsável, Blocal, Imprevisível). Ou seja passamos do VUCA para o BANI e agora para o BIBI. Não há diplomacia e a força impera, pelo que o poder económico, dependência energética, acesso territorial ou o poderio militar são a moeda de troca nas relações internacionais. As relações entre países devem ser reguladas pelo direito internacional, pelos valores e princípios das Nações Unidas ou pelo poder das armas? Julgo que pelo escalar recente das palavras dos líderes mundiais, tornou-se Beligerante pelo que a organização tectónica do mundo depende mais do poder nuclear do que dos direitos internacionais. A NATO ganhou um misto de organização defensiva e ofensiva; a ONU desapareceu; a UE não é coesa. Todos os mecanismos de equilíbrio mundial através da diplomacia foram subjugados pela geoestratégia política de cada estado, tal qual prostitutas ideológicas em defesa dos seus interesses.

Irresponsável pois a falta de prudência ou de reflexão na tomada de decisões, a leviandade de utilizar valores como a vida humana seja em que sentido fôr devia ter o limite da dignidade. Apenas o facto de existir alguém inimputável que não é responsabilizado pelos seus actos, é inaceitável. Desde políticos, a gestores ou qualquer outro que destrua aquilo em que acreditamos. Vimos isso em 2008 com a crise financeira, em 2020 com o inexplicável covid, a deterioração das liberdades fundamentais em Hong Kong,  ou em 2022 com a destruição da Ucrânia. O jusnaturalismo que defendo, explica bem esta posição: acima dos interesses individuais (das pessoas ou das nações) estão valores e princípios colectivos que não são negociáveis. A irresponsabilidade de fazer uma Guerra alimentar como mecanismo extorsionista por parte da Rússia, a Ambiguidade estratégica dos EUA na Ásia, o eclodir de movimentos extremistas e populistas que excluem fatias relevantes da população, a crise ambiental por países e empresários inconscientes, as migrações por necessidade, o consumo socialmente irresponsável… nada disto deveria acontecer!

Blocal, ou seja o mundo global desapareceu. O que vai acontecer é a interação e integração em blocos económicos, políticos, sociais e culturais (como Europa e alguns países do Norte de África; ou América do Norte e alguns países da América do centro e sul; na Ásia o bloco entre Japão, Coreia do Sul, Austrália e outros países asiáticos; entre outros blocos). De fora fica a China, a Rússia, a Índia, o Brasil, a Turquia, o médio oriente (que está desde sempre instável por questões religiosas e étnicas) bem como outros países menos relevantes no mundo de hoje. Países que utilizam a política económica como estratégia de chantagem política. E mesmo que não o façam, os blocos não podem interagir ou fazer acordos com outros blocos e países cujos princípios e valores são radicalmente opostos. Países que não respeitem os valores defendidos pela mundo ocidental não podem interagir com o bloco Europeu. Nem os seus cidadãos e suas empresas. Daí a importância da independência energética assente na economia verde que a Europa tem de acelerar, mas também no conceito de economia circular. Os constrangimentos logísticos com longas cadeias de abastecimento frágeis reforçaram a ideia de que a globalização pode não ser um sistema tão positivo como parece. A pandemia confirmou esta percepção. A invasão e guerra na Ucrânia acelerou a necessidade de repensar o modelo que o mundo assumiu como a solução para a coexistência entre nações. O pedido de adesão da Finlândia à NATO destapou que acima da economia está a necessidade de segurança e previsibilidade que as nações necessitam para viver com estabilidade. Mesmo o e-commerce está está cada vez mais dependente do “já e agora”, pelo que o “last mile wharehouse” que permite o “door to door” em 24h, impõe o modelo “blocal”. E este modelo Blocal, tem de criar blocos de países autónomos na produção e consumo, pelo que deve ter escala suficiente para poder, no limite, não depender de outros blocos. Obviamente as organizações e alguns países serão sempre multibloco como estratégia de diversificação e minimização de risco, mas o seu foco será sempre prioritário no seu bloco. Daí a importância da reindustrialização da Europa na indústria pesada bem como no fabrico que “exportou” para a Ásia. Mas manter sempre a aposta na inovação e desenvolvimento como factor distintivo dos restantes blocos. A globalização morreu!

Imprevisível pois é impossível antecipar o futuro: a Turquia bloqueia a entrada de países na NATO, chantageando os mesmos com exigências dum país que já invadiu a Síria e esmagou os curdos com o argumento de pretender evitar um “corredor terrorista”? O “monkeypox” surge quando ainda não se erradicou a pandemia covid que ninguém imaginava que iria acontecer. O canal do suez esteve uma semana fechado por causa de um barco encalhado, condicionando todo o comércio mundial, ou o maior porto marítimo do mundo (Xangai) funcionou a 50% por causa do lockdown e agravou o comércio mundial. Assim como era impossível antecipar a inflação galopante quando se esperava crescimentos económicos como nunca se viram. Ou o valor do Brent que há 2 anos estava em 3 USD e em 2022 está em 110 USD. Ou alguém imaginaria que as multinacionais Mc Donald’s, Renault, Ferrari ou Starbucks saíssem definitivamente da Rússia como forma de defender uma filosofia ESG (environment, social e governance). Ou seja, a imprevisibilidade no mundo em que o princípio da materialidade induzia a busca pelos destinos com custos de produção mais baratos ou com mercados de consumo com escala como a China, parece ter sido trocado pelo princípio da formalidade em que a forma e as regras têm de ser respeitadas, em que o valor da vida humana, dos seus direitos e da democracia são inegociáveis. Bem como o valor económico da previsibilidade, da estabilidade dos preços ou da estabilidade cambial têm valor. Deixamos de acreditar no bom selvagem de Rousseau. Mas também vemos o oposto, como podemos ver com a posição da Índia na guerra da Ucrânia: não tomar posição excepto referir que estão a tomar uma posição. Ou a cibersegurança e o mundo metaverso. Muitos outros exemplos poderia apresentar para demonstrar que vivemos um mundo que não se entende e impossível de antecipar e prever.

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