Morreu a globalização! Vamos ter um mundo multilateral ou blocal?

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

 

Sem dúvida blocal com 4 blocos que não incluem alguns países relevantes como alguns dos BRIC (excepto a China que corre sozinha e por si só constitui um bloco), a Índia, a maioria do continente africano e alguns países da Ásia e América do Sul. Nem sequer alguns dos países de leste serão um bloco mas um “império” pois não existe equidade entre estados mas apenas uma URSS disfarçada, com dirigentes políticos dos vários países nomeados pelo Kremlin. Não vai haver um alinhamento entre democracias contra autocracias, mas entre países que vão constituir blocos económicos com convergência de interesses (económicos, sociais e políticos) e auto-suficientes nas suas necessidades básicas. Nunca serão multipolares ou multilaterais pois os critérios mais relevantes serão: a proximidade geográfica, o custo logístico, o afastamento da dependência comercial e energética de regimes “abutre” que utilizam as relações comerciais como ferramenta de chantagem política, a solidariedade passada, a utilização de energias limpas por países eco-responsáveis que devem respeitar os valores ESG (por exemplo, não permitirem trabalho infantil ou branqueamento de capitais) e a forma de digitalização do país. Bem sei que o dinheiro e o lucro leva os países, empresas e pessoas, a baixarem os critérios de exigência, mas já percebemos que isso pode sair muito caro, como estamos a ver agora com a inflação em mais de 7% nalguns países, ou o incumprimento de pagamento da dívida pública e manipulação do valor cambial da moeda por parte da Rússia .. E até chantagem energética e alimentar sobre os estados que se tornaram dependentes num mundo global que se especializou por nação, para garantir economias de escala. E a história repete-se, pois a “guerra do porco”, assim conhecida pelo bloqueio no início do século XX às importações austríacas dos produtos alimentares da Sérvia (dependia em 97% das suas exportações para a Áustria) como forma de pressão de Viena; apenas criou uma oportunidade para a Sérvia vender os produtos a outros países com melhores condições. Por outro lado começamos a pensar que os sinais do imperialismo de Putin já existiam há muito tempo, só nãos os quisemos identificar.


Até no mundo digital a blocalização acontecerá, com as redes sociais multibloco nalguns casos, com a regulação das criptomoedas, com o acesso à internet (acesso controlado e manipulado nalguns países como na China e Rússia) e a cibersegurança. Alguns dos países sem bloco serão multibloco e tentarão aproveitar as oportunidades que surgirem enquanto o modelo está a ser criado. Países como a Argentina, o Brasil e Venezuela que já anunciaram que podiam substituir a Rússia e Ucrânia no fornecimento energético e alimentar. Mas sempre com o objectivos dos interesses próprios e não da blocalização geo-estratégica, pelo que não se pode contar com eles para o modelo blocal. Por outro lado, as condições de supply chain voltariam a apresentar as ameaças que a globalização apresentou de riscos de constrangimentos logísticos , nomeadamente a distância e obrigatoriedade de transporte marítimo de longa distância. Evidentemente as posições das nações dependem dos ciclos políticos, mas apenas retrato aqui o cenário actual.


Julgo que a OMC terá de se redesenhar pois o protecionismo será a regra assente em medidas fiscais. Assim como a ONU, pois o cinismo de mantermos estados párias membros da ONU quando desrespeitam os seus princípios fundadores, não pode continuar a acontecer. Existirá um reforço do papel da NATO que será fundamental para a segurança comum dalguns blocos. 


Ou seja, o mundo está a mudar de forma muito rápida. A inovação será (no médio prazo) o factor distintivo de superioridade entre blocos. Inovação em todas as vertentes, inclusive nas “commodities” pois no sector agro-alimentar por exemplo, a inovação traz maximização e sustentabilidade. Ou no sector energético pois as energias limpas são renováveis e sustentáveis, não impondo um modelo de dependência de alguns países. Iremos revisitar o romance de Haldous Uxley, “admirável mundo novo” publicado em 1932.


Os modelos do século XX não servem neste novo mundo blocal !

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