Mind the Gap: do secundário para a universidade

Por Ana Côrte-Real, Diretora MBA Executivo, Católica Porto Business School

A experiência de 23 anos no ensino superior (ainda que nos últimos muito focada na formação executiva e de empresas) permite-me falar de uma questão em relação à qual sou muito sensível: o salto dos nossos “meninos” para a Universidade.

Sensibilidade reforçada por ser professora, coach, mentora – e, last but not the least, pelo testemunho desse “salto” das minhas três filhas.

Bem sei que há hoje uma enorme preocupação das instituições de ensino em preparar os alunos para os exames de acesso à universidade; preocupação partilhada pelos Pais e pelos próprios alunos. São três anos de ensino secundário, focados no objetivo da média “x” para entrar no curso “y”. Podia falar desta política de acesso à universidade, mas deixarei para outra reflexão.

Hoje foco-me no objetivo da média para entrar na universidade. Objetivo tanto mais exigente quanto mais alta for a média de acesso… O percurso é feito e culmina com uma enorme conquista:  o aluno conseguiu a média “x” e entrou na universidade! Um sonho concretizado!

Pois bem… decorreu praticamente um mês deste sonho tornado realidade. Quantos dos nossos filhos estão meios perdidos nesta nova casa? Quantos alunos estão a pensar que, afinal, se calhar, não é este o curso… não era esta a faculdade… não era este o sonho…?!

Mais concretamente (e não querendo ser pessimista): e se, chegadas as primeiras avaliações, muitos estremecerem? E se receberem a primeira nota negativa da sua (curta) vida? “Negativa?! Terei ficado menos inteligente? Serei eu capaz deste desafio? Que desespero, estudei imenso e tive negativa??? Como é que é possível? E o pior é que os professores nem querem saber!

No limite: “Se calhar não é este o curso que quero…”, “Não sei estudar neste regime…”.

Perdoando-se algum excesso de dramatismo, a verdade é que estas são muitas das questões que ouço quando algum destes nossos meninos quer falar comigo ou alguns do Pais me roga desesperadamente: “Fale com o meu filho, pois eu não sei o que lhe dizer!”.

Na verdade, este sentir na entrada da universidade é compreensível. Há, efetivamente, uma diferença significativa da vida de estudante do secundário em relação à de estudante universitário. Há que preparar estes nossos filhos, estes nossos alunos, estes nossos futuros profissionais, para esta nova vida.

É uma fase exigente em que a auto-estima, a confiança, a segurança em si próprio é colocada em dúvida.

Muitos optam pela “fuga”, mudando de curso – quando, muitas vezes, estão a tentar evitar lidarem com o insucesso. Outros, mais resilientes, vão ultrapassando as questões – mas muitas vezes com algumas faturas “pesadas” no seu desenvolvimento e com tristezas e amarguras.

Este é, realmente, um “gap” que merece ser acompanhado. Depois de tanto foco no alcance da dita média, é tempo de acompanhar esta nova vida de adulto.

Na minha opinião, este processo deve iniciar-se ao longo do 12º ano, por forma a que (para além da conquista da média) se conquiste uma maturidade para lidar com o insucesso, com a falha, com a dúvida.

A vida não é feita de dezanoves! E, sobretudo: Mind the Gap!

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