Meritocracia

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário

 

meritocracia

substantivo feminino

  1. predomínio numa sociedade, organização, grupo, ocupação etc. daqueles que têm mais méritos (os mais trabalhadores, mais dedicados, mais bem dotados intelectualmente etc.).

ou em alternativa, de acordo com https://pt.wikipedia.org/wiki/Meritocracia:

“Mérito ou meritocracia é a ideia de que as pessoas devem se destacar não com base na classe social de seus pais, mas com base em suas próprias conquistas​ …”.

Portanto, nada de mais igualitário: não existe nada na meritocracia que não esteja em absoluta consonância com os princípios da igualdade de oportunidades. No entanto, em Portugal, sobretudo no sector público mas, infelizmente, também em algum privado, meritocracia não significa nada, ou muito pouco. Criou-se no nosso país uma cultura segundo a qual avaliar o trabalho realizado é algo mau, ignóbil. Avaliar para quê? Somos todos bons, excelentes mesmo. Ou seja, a probabilidade de sermos todos medíocres, ou até mesmo maus, é elevada. Não há termo de comparação. Não existem objetivos definidos nem metas comparativas, logo as avaliações não passam de um exercício de estilo. Com o medo terrível instituído na sociedade de que as avaliações serviriam unicamente para o patrão, o capitalista, o chefe se vingar, oprimir e até mesmo se aproveitar da fragilidade dos pobres trabalhadores indefesos, chegámos a uma situação em que é aceite não se fazerem avaliações regulares. As únicas que se fazem são um exercício penoso e administrativo realizado de forma mecânica no final do ano por quem ainda tem essa obrigatoriedade classificada como pouco solidária e pouco democrática. Algo que permitiria distinguir os bons dos maus, os que contribuem e os que esperam pacificamente que o tempo passe, os que aportam dos que que se aproveitam, é encarado como um horror. E assim, em Portugal, a maioria dos trabalhadores efetivos, quer do sector privado, quer do sector público, não se sente minimamente motivada para dar mais do que aquilo que fixa como mínimo. Qualquer trabalhador com um contrato por tempo indeterminado e que trabalhe mais cinco minutos do que lhe é exigido, que passe mais um segundo para além das horas estipuladas para terminar com profissionalismo a tarefa que lhe foi confiada, é imediatamente chamado à atenção pelos colegas com um: “Oh Pá, o que andas a fazer? Assim lixas a malta toda. Deixa-te disso, e anda mas é para aqui com a rapaziada beber uma ‘bjecas’ que já passa da hora”. Ou seja: é mal visto. Um profissional que se queira destacar, ou que queira simplesmente ganhar mais do que os outros, é marginalizado. Essa é a cultura em vigor. É triste. E, mais do que triste, é castrador para a construção de um Portugal moderno, motivado e mais produtivo.  Há muitas razões para esta situação e, entre elas, podemos elencar algumas que começam logo na escola onde os alunos que deveriam ser regularmente avaliados, que deveriam ter exames finais — a contar para as notas e sobretudo para as reprovações — passam a escolaridade inteira até chegar ao 12º ano sem um único exame a sério e onde, os poucos que existem, servem unicamente para aferir as instituições e a qualidade geral do ensino mas não têm consequências a nível individual. Ora, os nossos pais cresceram a fazer exames da 4ª classe, de admissão ao liceu e de 5º e 7º anos. Mas isso foi considerado retrogrado e pouco pedagógico. Instituiu-se logo ali uma cultura de pouco rigor. E, tal aconteceu, porque o sistema educativo está há muito nas mãos de uma certa esquerda que tem uma conceção muito própria daquilo que é, ou não é, pedagógico e que, sem ter em conta as necessidades futuras da sociedade, acredita que nivelar tudo por igual é que está certo. Infelizmente, acabaram por nivelar por baixo. Muito por baixo. Desde logo, quem impõe estes modelos educativos são os mesmos que recusam a sua própria avaliação profissional. E, daqui se pode inferir qual a recetividade destes agentes educativos à meritocracia.

Assim sendo, sem uma cultura de avaliações regulares, sem serem sistematicamente confrontados com as diferenças entre o seu desempenho real face ao que era expectável, os poucos trabalhadores dedicados, os poucos que conseguem fazer mais do que lhes é exigido, e demonstrarem o seu profissionalismo sem serem criticados, são os precários ou os trabalhadores por conta própria. Enquanto trabalhadores a termo certo, estes têm que demonstrar que merecem ser contratados como efetivos. No entanto, na maioria dos casos, quando são incorporados como efetivos, e como por artes mágicas, desprendem-se logo desses bons hábitos e ficam como os demais: encostados. Não haverá nada de mais injusto que ter centenas de jovens em regime de precariedade e a trabalhar muitas horas para além das estipuladas na esperança de ficarem com um lugar de efetivo no quadro — atualmente ocupado por um empregado desmotivado, encostado e literalmente à espera da reforma porque, faça ele muito ou pouco, dificilmente perderá o posto de trabalho. Esta é a injustiça dos nossos dias, extremamente madrasta para com os jovens e que a esquerda, ideologicamente cega, conseguiu impor na nossa sociedade sob a bandeira da defesa dos direitos dos trabalhadores. De quais trabalhadores? Daqueles que não trabalham? A consequência evidente desta situação é que os jovens acabam por decidir que, precariedade por precariedade, o melhor é optar por emigrar e trabalhar onde conseguem ganhar mais e onde não é proibido trabalhar. Temos que acabar com este estado de coisas. Quer no sector público, quer no sector privado, há que voltar a ter, ou reforçar, os incentivos ao trabalho. Sem pudor, sem medo da esquerda igualitária, sem tabus. Quem quer trabalhar mais — porque precisa de trabalhar mais ou porque lhe apetece trabalhar mais — tem que ter o direito de o poder fazer. Quem quer ganhar mais tem que ter a possibilidade de o fazer e, esse ganho extra, não pode, e não deve, ser praticamente todo absorvido pelos impostos. E, quem quiser fazer unicamente os mínimos exigidos, também tem que ter esse direito — até porque, em cada instante da nossa vida, por esta ou aquela razão, podemos estar mais, ou menos, disponíveis para nos dedicarmos à nossa profissão. Não devemos obrigar ninguém a trabalhar mais do que lhe é exigível mas, também, não devemos sistematicamente proibir os que o querem fazer de o fazer. É injusto que a única coisa que os sindicatos — o coletivismo sob a capa de querer proteger os trabalhadores das malícias do patronato — consigam fazer seja nivelar por baixo e castrar a iniciativa pessoal. É urgente voltarmos a ter remunerações variáveis que complementem as remunerações fixas. É imperativo aumentar o salário médio em Portugal “Salário médio bruto em Portugal destaca-se entre os valores mais baixos da União Europeia” (in sapo.pt de 21/03/2021). Mas, esse aumento tem que ser compensado com um efetivo aumento da produtividade. E, essa produtividade, consegue-se também deixando trabalhar os que querem trabalhar.

Os organismos do Estado já tiveram esse mecanismo de recompensa variável. Infelizmente, no caso dos dirigentes superiores, os prémios de gestão deixaram de constituir um dos efeitos da avaliação do desempenho — até porque os mesmos estão proibidos pelo artigo 37.º da LOE para 2013, pelo artigo 41.º da LOE para 2014 e pelo artigo 41.º da LOE para 2015. Por outro lado, os dirigentes superiores deixaram de poder ser alvo de atribuição da menção qualitativa de Desempenho Excelente.

Nada de mais errado. Existe hoje uma massa de trabalhadores amorfos e desmotivados porque, façam muito ou pouco, é igual. Nada muda, não há consequências. Não recebem mais, nem são mais reconhecidos por isso. As avaliações são uma farsa e, assim sendo, a única meritocracia que prevalece é a da antiguidade. Poderia pensar-se que os portugueses, o nosso ADN, a nossa forma de ser, são incompatíveis com o conceito de meritocracia. Nada de mais errado. Basta observá-los a trabalhar no estrangeiro, ou para empresas estrangeiras onde esse conceito faz parte da cultura empresarial, para nos apercebermos que, não só o aceitam, como o interiorizam rapidamente e na plenitude.

Sugiro que seja criada a possibilidade de outorgar, livre de IRS e de qualquer contribuição para a Segurança Social, um montante variável equivalente a 25% do salário atual bruto a todos os profissionais, sejam eles do público ou do privado. Tal permitiria subir o salário médio nacional, fixar a nossa juventude, incentivar as empresas a implementarem esta medida reforçando, na nossa sociedade, o conceito de meritocracia.

Mudar Portugal para melhor passa por mudar muitas coisas. Podemos ficar todos parados à espera que o governo, o sistema judicial, os políticos ou a Assembleia da República mudem primeiro para mudarmos em seguida. Recuso pertencer a esse grupo. Acredito que temos que ser nós, pouco a pouco, e de forma a incrementar a mudança, a alterar o que está ao nosso alcance. E, começar por instituir uma cultura de meritocracia, que mude o comportamento e a mentalidade instalada desde os tempos revolucionários por sindicalistas caducos, está ao nosso alcance. Deixem trabalhar quem quer trabalhar. Ajudem a incentivar o gosto pelo trabalho, pela dedicação e pelo profissionalismo e, certamente, que tudo mudará para melhor.

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