Mais Estado ou menos Estado, eis a questão. Ou não.

Por Fernando Neves de Almeida, Partner da Boyden.

Desde que me lembro de ter consciência política, logo por alturas do 25 de Abril de 1974, que grande parte da discordância, entre as várias forças políticas, é a dimensão do Estado na economia. Começa com as nacionalizações pós-revolução, as privatizações que se seguiram e com uma tendência oscilante de encarar os agentes económicos e prestadores de serviços, consoante o PS ou o PSD tenham mais influência. Mas será que isso importa assim tanto para a nossa fraca competitividade e qualidade de vida relativa? Será que é a ideologia que tem sido responsável por tudo?

Há pouco tempo vi um documentário sobre a China que me deixou fascinado. Quero dizer que o meu conhecimento da China não se resume a documentários; já visitei duas vezes com grande intervalo de tempo, Xangai e Pequim. E é, de facto, impressionante, como um país pobre, como era há muito pouco tempo, se está a transformar no que, em breve, será a maior economia do mundo. E é comunista!

Por outro lado, vemos outros exemplos de sucesso com ideologias completamente diversas: EUA, Singapura, Suíça, Luxemburgo, só para dar alguns exemplos. Já em outros países, comparáveis ideologicamente com os que citei, os resultados não são nem comparáveis. Assim, quase concluo que o tema não é ideologia política. E se por cá as coisas não correm bem, não é por estar a esquerda ou a direita no poder. É por falta de competência estratégica e de execução.

No entanto, uma coisa gostaria de referir. A China só começou este caminho de expansão económica quando, após Mao, começou a dinamizar-se a iniciativa privada. Pequenos e médias empresas, como diria o PCP. E funcionou. Isto porque, como referi no meu artigo anterior, os incentivos fazem toda a diferença.

A China sabe para onde quer ir (e vai lá chegar). E Portugal, alguma vez vimos algum dirigente político relevante falar do seu sonho para o país? Alguma estratégia de desenvolvimento de longo prazo? Também não seria fácil porque, ao contrário da China, o governo, em Portugal, pode mudar a qualquer momento. É o preço da democracia.

No entanto, há coisas que qualquer governo, seja qual for a orientação política, pode e deve fazer e, infelizmente, sinto que os políticos da minha geração (em que eu depositava tantas esperanças) falharam. A boa gestão da coisa pública, ou seja, boa execução. Não deve interessar se o sistema A ou B é público ou privado. Tem de ser bem gerido! A gestão, no que é do Estado, deve ser tão boa ou melhor do que no privado, porque no Estado quem paga os erros somos todos nós e no privado são os acionistas ou proprietários (que sabem defender os seus interesses).

E para as coisas funcionarem bem deve existir gestão profissional, salários competitivos e avaliação de desempenho correta e com consequências. No Luxemburgo, por exemplo, é muito difícil uma empresa privada ir recrutar ao setor público. Porquê? Porque eles têm os mais bem pagos e, por isso, os melhores.

Por aqui, se as empresas públicas, direções-gerais, institutos e afins, fossem geridas como empresas privadas, ou seja, se o Estado assumisse verdadeiramente o seu papel de acionista e exigisse resultados, estou em crer que estaríamos melhor. Mas para isso é necessário perceber de gestão de organizações e, pelos vistos, isso não há em abundância por aqui.

A minha esperança é que, por via da melhoria na educação, a geração dos meus filhos e dos meus futuros netos (a existirem) sejam mais exigentes nas escolhas políticas, e que liguem mais a resultados do que ideologias, na hora de escolherem quem os governará.

Num país em democracia, como o nosso, só o rigor na gestão e execução, aproveitando o que o livre funcionamento dos mercados nos pode proporcionar, nos permitirá ir avançando, pelo menos, para a média do desempenho na Europa.

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