Integridade, Vacinas e Atropelamentos

Por Joana Santos Silva, Professora de Estratégia e Diretora de Inovação do ISEG Executive Education

É mais fácil mantermo-nos fiéis aos nossos princípios 100% do tempo do que 98% do tempo.”  – Clayton Christensen

Christensen foi professor de estratégia da Harvard Business School e o reconhecido “pai” da teoria da inovação disruptiva. Era apelidado “o Gigante de Harvard” dado que tinha mais de 2m de altura e calçava o tamanho 51. A revista The Economist considerou o seu trabalho na área da inovação como o conceito mais importante de gestão do século 21 e o livro The Innovator’s Dilemma – um dos 6 melhores livros em gestão de sempre.

A par do seu trabalho na área da inovação, Christensen era admirado pelos seus pares e considerado um homem justo, brilhante, muito religioso e reconhecido pelo seu carácter irrepreensível. Em 2010, foi convidado pelos alunos de MBA de Harvard para dar uma aula fora do normal, uma aula sobre “como avalia a sua vida.” Para Christensen, a fórmula da boa vida consiste em estar satisfeito na carreira, ter relações duradouras com a família e amigos e viver com integridade.

Na perspetiva da integridade, Christensen faz uma analogia com os custos marginais e custos totais. Na vida, muitas vezes adotamos a visão do custo marginal na escolha entre o certo e o errado. Por outras palavras, quando confrontados como uma decisão pensamos: “De forma geral, não tomaria esta decisão, mas é só desta vez…”.

Se aplicarmos a visão do custo marginal, “só desta vez”, parece que o custo é desprezível. Muitas das nossas decisões menos honrosas são fruto deste tipo de pensamento. Contudo, para viver com integridade temos de nos manter fiéis aos nossos princípios sempre! Ao abrir uma exceção é provável que volte a acontecer. Devemos ter para nós valores não negociáveis, nos quais não vacilamos independentemente do contexto. Essa é a base da nossa integridade.

No final do mês de junho, voltou-se a repetir uma irregularidade no acesso às vacinas contra o COVID no nosso país. Não foi o primeiro incidente e provavelmente não será o último. Já tivemos os casos da autarca, dos funcionários da pastelaria, do esposo da médica, entre outros… Desta vez foi uma jovem de 18 anos, filha de uma apresentadora de televisão, que terá sido inoculada num centro de vacinação. Passou à frente de outros, furou a fila, acelerou a processo dela conseguindo acesso a uma vacina, mas também terá acesso mais rápido a um certificado digital COVID que lhe permitirá ter liberdades de circulação de forma mais acelerada. Sempre que há lugar uma irregularidade destas, alguém não foi fiel aos seus princípios. Não estou a falar dos fura filas. Esses terão de ser avaliados de outra forma. Estou a falar dos profissionais que administraram e facilitaram o acesso.  Nestas circunstâncias, alguém usou o pensamento do custo marginal. Pensaram: “é só desta vez…”

O caso mais mediático e atual relacionado com falha de integridade prende-se com o Ministro da Administração Interna. São tantos os momentos de execução danosa e de falta de transparência, que começamos a questionar os princípios do senhor. Desde a polémica das golas antifumo inflamáveis, às falhas no SIRESP, a morte do cidadão ucraniano, Ihor Homenyuk, a requisição civil do Zmar e agora o atropelamento mortal de Nuno Santos na A6 no dia 18 de junho. Será difícil convencer alguém que este conjunto de acontecimentos são apenas coincidências infelizes sempre relacionadas com a mesma pessoa. Existe um padrão e é difícil ignorar padrões com evidência tão forte. Se a integridade é um fator essencial de um individuo, num governante deveria ser uma parte fundamental do carácter.

Em “como avalia a sua vida”, Christensen coloca o pilar da integridade de forma veemente. Perguntou aos seus alunos de MBA – “como é que posso ter a certeza de que me mantenho fora da cadeia?” A pergunta não era hipérbole. Na realidade Christensen tinha frequentado o MBA na Harvard Business School integrando uma turma de 32 pares. Dois dos seus colegas foram presos e um dos colegas era Jeff Skilling, da Enron. Christensen alega que eram boas pessoas, mas algo aconteceu nas suas vidas que os levou a tomar opções erradas.

Como ele, gosto de pensar que na sua maioria, as pessoas são boas e querem viver uma vida íntegra, mas é fácil ficar perdido quando pensamos nos atos de forma isolada. É por isso que temos de pensar no custo total e não marginal. É por isso que não podemos nunca vacilar perante os nossos princípios. E os nossos princípios tem de ser mantidos em 100% dos casos, não de vez em quando. Porque a integridade não se negoceia.

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