Financiar Negócios Sustentáveis

Por Clara Raposo, Dean do ISEG.

De há algum tempo para cá a palavra sustentabilidade passou a atrair a atenção de todos. É importante que seja bem compreendida. Há dez anos, quando me falavam na sustentabilidade de um negócio, de uma empresa ou de um setor de atividade, eu pensava logo em sustentabilidade financeira do negócio – quão lucrativo/rentável seria. Creio que esta interpretação não se devia ao meu enviesamento profissional para temas financeiros e é representativa daquilo que a esmagadora maioria dos gestores e economistas interpretariam. E, sem dúvida, a sustentabilidade financeira de um negócio – se aquele “business” gera valor monetário que justifica o investimento – era e continua a ser essencial. Porém, quando hoje falamos em sustentabilidade somos assaltados por um turbilhão de ideias, começando por questões ambientais.

Já não se trata apenas de uma teenager sueca a manifestar-se em defesa de uma alteração do atual modelo económico para algo que preserve e valorize o capital natural da Terra, dando uma hipótese às novas gerações humanas de aí viverem. As próprias Nações Unidas já há muito consagram uma Agenda para a Sustentabilidade com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável elencados e densificados. Termos como descarbonização e pegada ecológica passarão necessariamente a fazer parte do léxico das empresas e dos setores que partilham esta visão de futuro. Estamos atrasados para atingir as metas que travem o aquecimento global adequadamente até 2030 – daí que o atual momento seja determinante rumo a um movimento global nesse sentido para que, em 2050, possamos respirar de alívio.

Com a crise pandémica e a profunda crise económica que um vasto número de setores atravessa e atravessará nos próximos tempos, pensar com clareza acerca de um futuro com maior exigência e melhores padrões de qualidade na produção e no consumo parece impossível ou mesmo ridículo. Mas, por outro lado, a nossa maior consciência coletiva (“pan” somos todos) das nossas interdependências, venhamos de onde viermos, sejamos de que cor formos e pensemos o que pensarmos sobre a vida, ajuda a reconhecermos uma certa inevitabilidade de coordenação. Temos uma causa comum e seria muito bom sabermos aproveitá-la e agirmos.

Para além dos pacotes de estímulo à economia que países como os Estados Unidos já têm em curso e que a União Europeia planeia e vai tardando a implementar, temos empresas que já iniciaram um processo de transformação dos seus negócios por forma a satisfazerem critérios de sustentabilidade ambiental e não só – ESG, Environmental, Social and Governance –, enquanto outras ainda não sentiram essa vontade ou não tiveram capacidade para isso dada a crise, a natureza dos seus produtos/serviços e o ambiente de forte concorrência global em que operam. A fasquia da exigência tem de subir para todos ao mesmo tempo para que funcione.

Também os investidores pressionam o tecido empresarial através de uma maior procura de investimentos que cumpram requisitos ESG. Quem o diz são os dados da indústria de gestão de ativos, mesmo que haja ainda dúvidas e falta de uniformização de critérios de medição. O próprio CEO da Blackrock, Larry Fink, a 20 de março, na Sustainability Week da revista The Economist, reforçou a necessidade de que haja mais oferta para esta crescente procura de investimentos sustentáveis – o setor financeiro estará preparado para colaborar nesta mudança, mas é preciso que as empresas também o saibam fazer e que muitos negócios se reinventem, alguns ao ponto de se tornarem irreconhecíveis. Para isso, todo o conhecimento é preciso, das mais diversas áreas. As Universidades têm aqui um papel importante, na formação de quadros e líderes, desde as licenciaturas até aos executivos. A minha Escola é um exemplo disso mesmo: estamos apostados neste caminho, com iniciativas como o novo ISEG Sustainable Finance Knowledge Center ou o curso Sustainable Finance – Green and Climate Finance repleto de estrelas. Nesta batalha, ou todos perdemos ou todos ganhamos – há que combater.

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