Essência (e não aparência!)

Por Maria João Guedes, Professora do ISEG, Universidade de Lisboa, co-coordenadora do Women on Boards – Portugal e do XLAB-Behavioural Research Lab

Em todos os domínios das nossas vidas somos julgados, pelo modo como nos vestimos, como rimos, como falamos, como andamos, e muito mais. Ou seja, somos alvo de escrutínio e juízos sobre a nossa aparência. Por vezes, estes juízos são mais evidentes e presentes do que os juízos em relação à nossa essência e isso pode afetar o modo como trabalhamos ou nos sentimos no trabalho.

Quantos de nós já sentiu que não há uma “receita” certa e que qualquer que seja a escolha é sempre criticada?  Quem não já experienciou estas situações?  “Se uso maquilhagem, sou exagerada, se não uso sou descuidada” ou “se vou ao barbeiro acusam-me de ter muito tempo livre, quando não vou, acusam-me de não me esforçar por parecer o melhor na reunião”. Já para não falar no modo de vestir:  a gravata fina de mais, o salto demasiado alto, a camisa muito transparente, o casaco muito antiquado, o vestido colorido ou muito floreado. O que é mais evidente é o sentimento de que qualquer que seja a opção, nunca conseguimos reunir consenso.

Mas será que no contexto de trabalho isto também ocorre? Em particular, no topo das empresas, os gestores e gestoras também se sentem julgados pela sua aparência?

Para responder a esta questão, fiz um inquérito aos gestores e gestoras das empresas (não cotadas) em Portugal. Quando questionados se se sentem julgadas e julgados pela sua aparência no contexto de trabalho, a resposta é sim. Mas o julgamento não é sentido de igual modo por mulheres e homens. As mulheres sentem mais pressão e julgamento que os homens. Para além de apontarem que se sentem julgadas em geral, as mulheres sentem, ainda, que são mais julgadas pela aparência do que os seus colegas. Acrescenta o facto de mencionarem que sentem pressão para se apresentarem sempre impecáveis e que se sentem magoadas quando criticam o seu aspeto físico em vez de se focarem nas suas qualidades profissionais. No entanto, os homens também sentem esta pressão e julgamento. Em especial, sentem que esperam sempre o máximo de si e sentem-se pressionados para se apresentarem sempre no seu melhor em todas as situações.

Os resultados obtidos mostram que também no topo das empresas se faz sentir os efeitos dos julgamentos da aparência e isso faz com que gestores e gestoras sintam cada vez mais pressão para ir de encontro às expetativas que (acham) ter sobre o que devem parecer e o que é esperado de si. E a isto tudo vem juntar-se a pressão que já sentem em relação às vendas, à segurança, a apresentar lucros, a pagar salários, a crescer em novos mercados, entre outros.

Deste modo, o foco deve mudar para a essência e para as mais valias que trazem à gestão das empresas.  E deve ser por aí que devem ser julgados. Sim, porque haverá sempre julgamentos, mas que estes sejam de essência e não de aparência.

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