Economia redonda

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

 

Não sou economista nem pretendo substitui-los. Mas sou gestor e parece-me que algumas medidas poderiam diferenciar a nossa posição como Nação, de todas as outras. O conceito económico da Economia Circular é uma  estratégia que assenta na reutilização e reciclagem de materiais e energia no ciclo de produção dos bens. Ou seja, em lugar da estratégia de fim de vida da economia linear, dos resíduos (ou subprodutos), são criados novos fluxos circulares de reutilização, restauração e  renovação destes materiais e da energia utilizada, como forma de diminuir a pegada ecológica, mas também a redução de custos. Trata-se de um processo integrado, que promove conceitos que poderiam parecer inexoráveis, que o crescimento económico traz sempre consigo o aumento no consumo de recursos. Implica o redesenho do processo produtivo e dos produtos economicamente viáveis e ecologicamente eficientes, e não apenas a reutilização de materiais. São inúmeros os benefícios da economia circular e esta é uma estratégia com resultados demonstrados.

O meu conceito de economia circular é outro, puramente económico que pretende estimular uma estratégia económica que não é protecionista, mas pretende estimular a economia de países pequenos como o nosso. Apelidaria de “Economia redonda” (apenas para não repetir a economia circular), não como o conceito negativo que por vezes associamos a esta palavra, mas ao conceito base definido no dicionário Priberam: “a de uma economia cuja forma é tal que todas as linhas tiradas do centro ou eixo central para a circunferência são iguais”. Ou seja, uma sequência estratégica em que todas as linhas são fundamentais para o sucesso (eixo) da organização. Que inclui o processo produtivo e eficiência energética mas não só; também a comercialização, planeamento fiscal, gestão de recursos, planeamento económico e financeiro, qualificação e educação, estratégia empresarial, responsabilidade social, financiamento, investimento, etc. Ou seja aumentar a competividade da nação através do aumento da competividade das suas organizações. Como? Através de algumas (não listo aqui todas) medidas:

– Estímulo à criação da marca “Portugal”,

– Estímulo à economia circular tradicional, com a atribuição de benefícios para a eficiência energética (na gestão sustentável de resíduos, na gestão sustentável do solo, na biodiversidade e conservação, nos transportes de emissões reduzidas e em água potável),

– definição do mapa estratégico do País com segmentos de negócio fundamentais e de valor acrescentado com correção das desigualdades territoriais,

– redução do investimento público através da transferência indirecta para estímulos ao sector privado,

– alocação de recursos para criação de infraestruturas de acordo com o mapa estratégico do país,

– promover a estabilidade fiscal e a sua redução do peso no rendimento das empresas e das pessoas,

– estimular a qualificação de mão de obra, nomeadamente a melhoria da qualidade da gestão com formação dos quadros empresariais e melhoria da organização empresarial, com a consequência do aumento da produtividade,

– criação de estímulos à qualificação e requalificação dos recursos humanos nacionais, quer das organizações privadas, públicas e de ensino,

– estimular a melhoria da qualidade da classe política com intervenção maior da sociedade civil e de decisores políticos não ligados aos partidos, mas com reconhecida competência na sua área; naturalmente que a missão pública apenas se torna interessante com o consequente aumento da remuneração desta classe,

–  promoção de processos produtivos com produtos locais, com integração de valor nacional no mínimo em 60%,

– redução da dívida externa e equilíbrio da balança comercial, através de um “soft landing”,

– valorização da distribuição em mercados locais (consumo interno) e exportação com simplificação de processos a exportação não como um objectivo mas como um instrumento),

– criação de estímulos á digitalização empresarial e estímulo ao apoio destes a outras organizações da nação,

– criação de autonomia das instituições de ensino com forte regulamentação e controle, com investimento elevado neste sector (nomeadamente ensino secundário),

– redução do desemprego com medidas de integração de jovens recém-licenciados e retenção de talento nacional (os nossos cérebros) em Portugal,

– estimular o reinvestimento dos lucros de IRC (mas também de IRS) com benefícios fiscais, na companhia ou em PMEs  e startups classificadas pelo estado como de interesse nacional e alto potencial,

– potenciar o estímulo ao Investimento Directo Estrangeiro considerado estratégico, que não afecte negativamente a balança comercial (com mais importações do que exportações), ou seja que integre produtos nacionais no seu processo produtivo,

– estimular o apoio á internacionalização das empresas Portuguesas,

– fomentar a criação de capital de risco que estimule a criação de empresas em Portugal,

– estimular e financiar a I&D nas empresas e na academia nos segmentos estratégicos, avaliando o número de artigos publicados e patentes registadas , bem como a sua efectiva utilidade,

– estimular a criação de economia colaborativa entre empresas do mesmo sector e criação de clusters empresariais (como o calçado ou mobiliário), com partilha de investimentos de I&D, promoção, entre outros,

– integração do humano com a inteligência artificial e machine learning; dando como exemplo a total digitalização e integração dos dados e informação da administração pública,

– revisão do sistema judicial tendo em vista a rapidez e eficiência do mesmo, nomeadamente na área civil e comercial.

Entre muitas outras medidas, que são muito melhores explicadas por economistas liberais, mas que sei que são de execução difícil, com a resistência de poderosos interesses de organizações e corporações. Mas é apenas “senso comum”, embora eu sei que o “senso” não é tão “comum” assim!!!

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