E fingem-se de “mortos”

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Qualquer marido sábio sabe que quando a sua esposa pergunta, de forma dúbia, se está tudo bem? O melhor é fingir-se de “morto”. Já sabe a resposta e certamente tudo o que se possa responder a vai enfurecer. Aparte esta brincadeira que não tem pressupostos machistas, releva que esta técnica de se fingir de “morto” tem sido bastante utilizada na campanha eleitoral. Basta começar a falar de economia, empresas, emprego e fiscalidade. O financiamento do orçamento de estado vem essencialmente dos impostos cobrados aos Portugueses. Pelo quando ouvimos os políticos prometer (e bem diga-se) aumentar os gastos na saúde, recrutar mais funcionários públicos, aumentar os apoios sociais, baixar o IVA da electricidade, aumentar o salário mínimo e agora até o médio, um rendimento universal mínimo ou até um subsídio de desemprego para quem se despede do seu trabalho, ficamos à espera do que se segue. E é aqui que os políticos se fingem de “mortos”. Pois falta a pergunta óbvia: e como vamos pagar tudo isto que aumenta a despesa? Só o podemos fazer com o crescimento dos “rendimentos” do estado cuja principal fonte são os impostos. Se a economia e o emprego crescerem pode ser suficiente e não temos de aumentar a taxa de cobrança de impostos se a despesa não crescer exageradamente. Mas se a economia não crescer como se espera (e em consequência a receita), têm de aumentar (ou pelo menos manter) a cobrança dos impostos, directos e pior, os indirectos. Aumentar o IRS, IRC, mas também o IVA, IMI, imposto sobre produtos petrolíferos, taxas e coimas, etc etc etc. Portanto fingirem-se de “mortos” quando esta questão surge é uma estratégia “urdida” pela maioria dos políticos. Ou não sabem responder, ou não querem responder, ou então repetem infindavelmente duas ou três medidas que nos fazem “olhar para a árvore e nunca para a floresta”. Seria bom perceber que estado social queremos e como o vamos financiar? E certamente não é como disse recentemente alguém que sempre deve ter recebido salário público sem meritocracia -“vamos buscar o dinheiro onde ele existe”. Referia-se aos ricos mas não chega (temos infelizmente poucos em Portugal), também tem de se ir buscar à classe média através dos impostos, nomeadamente os indirectos com baixo nível de evidência para o contribuinte (como os combustíveis actualmente). Por outro lado, existe sensibilidade à cobrança fiscal que quando se torna desiquilibrada e exagerada (como a nossa), promove a sensação de injustiça, logo estimula a fuga ao fisco ou a deslocalização do capital. Nada de novo, pois num mundo global o capital circula rapidamente, não tem fronteiras, e os capitalistas investem onde lhes é mais favorável. O próprio estado faz o mesmo quando vai vender dívida pública nos mercados internacionais e agradece a existência destes capitalistas apátridas que financiam o nosso estado social a troco de juros.

Esta técnica política é portanto e provavelmente aquela que mais tem empurrado os eleitores para se desligarem da política ou então para os extremos e para o populismo. Pois os Portugueses não são ignorantes (20 milhões de visualizações dos debates políticos televisivos mostram o interesse do nosso povo) e “tentar tapar o sol com a peneira” a dizer que se aumenta a receita através de “ maior eficiência fiscal” ou que se “impede a transferência de capitais para offshores”, não serve. Sabemos que isso não vai acontecer no curto prazo. O que significa que não têm um plano sério e logo não poderemos pagar todas as promessas que fizeram. Portanto são só promessas que ninguém se vai lembrar daqui a uns meses. 

Deixem então de se fingir de “mortos” e apresentem um real plano económico e fiscal para o país, de curto e médio prazo, com indicadores macroeconómicos e cenários realistas. Depois decidam que medidas sociais apresentar de acordo com a ideologia de cada um. Talvez assim recentremos a atenção e interesse dos portugueses naquilo que realmente interessa, o futuro do País! 

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