E, como sempre, quem se lixa é o mexilhão…

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário

 

Demorei muito tempo a decidir se escrevia, ou não, sobre o acidente que vitimou um trabalhador, colhido mortalmente pela viatura oficial que transportava o senhor Ministro da Administração Interna. Demorei porque estou convencido que foi um caso totalmente fortuito. Obviamente não foi intenção de ninguém tirar a vida a um ser humano. Portanto, não escrevo sobre o acidente em causa, mas sobre a postura que alguns dos nossos governantes têm face às situações desagradáveis com que se deparam. É nestas alturas que se vê e se distingue entre os comportamentos adultos dos das crianças e quem são verdadeiramente as Senhoras e os Senhores.

Infelizmente, naquele dia 18 de junho de 2021, na A6, um trabalhador faleceu, uma mulher ficou viúva e duas crianças de 13 e 16 anos ficaram órfãs de pai. Esta é a realidade. Uma realidade onde “A viúva do trabalhador que foi mortalmente atropelado pelo carro do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, queixa-se de que só recebeu “uma carta” com as condolências, mas que ninguém lhe perguntou “se precisava de ajuda”. Agora, teme pelo futuro das filhas.” Como a própria desabafa: “’Minhas filhas vão morrer à fome” (in zap.aeiou.pt de 26 de junho de 2021).

E a pergunta que se impõe é: Onde está a humanidade desta gente? Onde está a humanidade do MAI e do seu mais alto responsável? Ninguém se dignou a ir pessoalmente falar com a família enlutada? Antes, depois, ou durante as celebrações fúnebres?

Imaginem só se fosse a viatura de um qualquer dirigente político não afeto à geringonça que tivesse, em circunstâncias similares, colhido mortalmente um trabalhador. Ter-se-iam levantado clamores de protestos e ondas de solidariedade socialista complementadas por discursos inflamados de esquerda proferindo as mais inverosímeis barbaridades. Mas, não! Neste caso, como não serve ao poder incumbente, nada aconteceu. Nem o senhor Primeiro-Ministro se dignou a fazer uma chamada telefónica (o que tinha custado? 5 minutos do seu tempo? E quanto teria isso significado para a família? Muito.) nem o senhor Presidente da República, o Presidente mais digital e afetivo da nossa história, conseguiu arranjar tempo para enviar uma mensagem recorrendo às redes sociais, que tanto usa, e confortar a família de quem morreu num acidente envolvendo um governante da República. Tudo muito mau. Tudo muito pouco humanista. Tentou-se desde a primeira hora que o assunto fosse rapidamente esquecido e ultrapassado com muito pouca solidariedade para quem sofre. Tudo o que foi feito a posteriori, foi-o mais por pressão dos media do que por iniciativa de quem de direito.

Depois deste episódio, era mais do que expectável que os detentores de cargos públicos passassem a andar sob o escrutínio da imprensa no que toca a deslocações a alta velocidade. Mas, embora também expectável, de nada serviu a desgraça recente dado que, passado um mês, eis que é noticiado: “Carro em que seguia o ministro do Ambiente apanhado a circular a 200 km/h na A2” (in onovo.pt de 16/07/2021). E, mais grave ainda, o Sr. Ministro do Ambiente veio logo declarar que “Não era eu quem ia a conduzir e não me apercebi.” Não se apercebeu, mas devia, até porque convém recordar que os limites de velocidade não existem porque os carros estão tecnologicamente pior, ou as infraestruturas rodoviárias em mau estado. Existem fundamentalmente por uma questão ambiental, para forçar a redução do consumo. É uma herança da crise do petróleo de 1973. Pessoalmente acho que os atuais limites de velocidades não fazem sentido nenhum e que Portugal deveria adotar o código da estrada alemão. Mas pior: O “Ministro do Ambiente culpa motorista e garante que ‘nunca mais voltará a acontecer’ andar em excesso de velocidade” (in cmjornal.pt de 19/07/2021). A somar a estes dois belos exemplos temos ainda “António Costa apanhado em excesso de velocidade fez 300 km em menos de duas horas” (in cmjornal.pt de 17/07/2021).

Ou seja, tudo leva a crer que, em Portugal, temos um conjunto de motoristas tresloucados, infetados pelo “vírus Fittipaldi”, que, invariavelmente, são afetos ao serviço dos senhores Ministros e Primeiro-Ministro e que, sem razão aparente, sem absolutamente nenhum pedido ou ordem, se aproveitam do facto dos seus passageiros estarem a dormir, a descansar, ou simplesmente distraídos, para acelerarem e fazerem o gosto ao pé colocando as suas vidas em risco por prazer. Temos trabalhadores do Estado que consideram que o risco é a sua profissão, e que, por sua alta e recreativa vontade, colocam a vida dos nossos queridos governantes em perigo sem que estes, talvez completamente atemorizados ou em êxtase, consigam gritar “BASTA!”, ou “PÁRA!” ou mesmo “DEVAGAR!”. E querem estes senhores que nós, população anestesiada por esta crise pandémica e subserviente aos subsídios estatais, acreditemos nisto? Por amor de Deus, tenham paciência! Quando um episódio desta gravidade acontece, o mínimo a fazer é assumir e, sobretudo, proteger o colega mais fraco, neste caso, o colega motorista. Portanto, em vez de acusar o motorista, deviam era defender o mesmo. Nem sei como é que os motoristas do Estado ainda não se manifestaram em protesto veemente por esta falta de solidariedade por parte dos governantes que transportam diariamente e que, invariavelmente, lhes pedem para que façam os possíveis, e os impossíveis, para recuperar os atrasos permanentes decorrentes das suas preenchidas agendas. Uma reunião atrasa-se, há que ir a correr para um almoço. Um almoço atrasa-se, há que ir a correr para um programa televisivo. E assim, a falta de rigor e/ou capacidade do governante em cumprir os horários da sua agenda faz com que, invariavelmente, o motorista seja obrigado a exceder os limites de velocidade. Porque, sejamos honestos, caso não o faça, rapidamente é substituído por outro que o consiga fazer e que esteja disponível para o fazer. Alguém acredita que um motorista tem a possibilidade de se virar para trás e dizer: “Desculpe Sr. Ministro, quem se atrasou foi o senhor, e eu não vou colocar-nos, nem a si, nem a mim, nem aos outros, em perigo excedendo os limites de velocidade para que possa chegar a horas à sua próxima reunião. Aconselho-o a desmarcar a mesma e irmos, com tempo e vagar, para a seguinte”. E, a acontecer, estou certo que seria um motorista muito querido, muito louvado e que, no final da sua comissão, receberia um chorudo prémio de desempenho.

Outro belo exemplo desta máxima de que a existir qualquer culpa é sempre de um qualquer bode expiatório, é o do “Encarregado de proteção de dados que Medina quer exonerar (…) trabalha na autarquia há 33 anos. Luís Feliciano, o jurista encarregado de proteção de dados na Câmara de Lisboa desde 2018, está nos quadros da autarquia desde 1988. Começou pela administração do património imobiliário e passou pela coordenação territorial. E agora é o bode expiatório de um escândalo muito mal explicado.” (in dn.pt de 20/07/2021). No entanto, esse mesmo “Encarregado de dados da CML acusa Medina de o exonerar por causa das eleições” (in eco.sapo.pt de 12/07/2021), e como “Responsável destituído rejeita responsabilidades e diz que nunca foi informado do envio de emails do Gabinete de Apoio à Presidência às embaixadas” (in publico.pt de 12/07/2021). Portanto, neste país, como sempre, quem se lixa é o mexilhão. E esta falta de capacidade de assumir as responsabilidades que são inerentes aos cargos que ocupamos em cada momento é algo que me deixa muito agastado. Fui, desde pequeno, ensinado a defender “os de baixo” e a enfrentar “os de cima” nem que isso possa trazer consequências profissionais nefastas. Um bom líder protege sempre a sua equipa, sejam quais forem as circunstâncias. Aos atuais governantes deixo-vos esta reflexão: não culpem, não lixem o mexilhão, não procurem bodes expiatórios, assumam as vossas responsabilidades porque só assim os portugueses poderão continuar a ter confiança em quem os governa.

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