Competência

Opinião de Fernando Neves de Almeida
Partner da Boyden

A eficácia e eficiência organizacional, parecem continuar a ser um problema no nosso país. Esse problema constata-se, facilmente, na comparação com outros países, onde a generalidade dos estudos comparativos, que medem a produtividade, indicam que Portugal está na cauda da Europa e do mundo desenvolvido. Como consequência, temos salários mais baixos do que gostaríamos, impostos mais altos do que gostaríamos e serviços públicos menos eficientes do que gostaríamos.

Levando a análise para um patamar mais macro, alguns diriam que a culpa é das ideologias mais de esquerda, uma vez que estão menos inclinadas (segundo os opositores) a preocuparem-se com a criação de riqueza e mais com a distribuição equitativa da que existe. No entanto, nesta minha reflexão, gostaria de ir a um nível mais micro, ou seja, analisar alguns fatores que podem ser determinantes, independentemente das opções políticas dos governos, na produtividade, ou seja, na eficácia e eficiência da gestão, quer da coisa pública, quer do setor privado. Assim, gostaria de referir dois dos fatores (entre muitos outros) que, no decorrer da minha vida profissional, tenho testemunhado fazerem uma diferença dramática no desempenho das organizações: competência e incentivos. Irei tratar do primeiro tema neste artigo, deixando o segundo para um próximo artigo.

Por uma questão de simplificação para este artigo, diria que competência será a adequação de determinada pessoa à capacidade de lidar com as exigências de determinada função. Embora a competência, ou a falta dela, se possa observar no dia a dia, em situações normais, é nas situações de emergência que ela salta mais à vista. E nós temos estado a viver nesse estado, há tempo demais, o que tem posto em evidência o enorme número de incompetentes que andam por aí. Mas se quisermos ir ao fundo da questão no tema de atribuição de responsabilidades, eu diria que os maiores responsáveis pelo fraco desempenho dessas pessoas, não são tanto elas, como os que as nomearam. A competência deve ser o principal critério na escolha de pessoas para trabalhar; não a cor política nem tampouco o “estar à mão” ou, ainda, o ser o melhor que conheço. E, como cidadão, preocupo-me, essencialmente, com a qualidade dos recursos humanos nos serviços públicos, em especial, dos seus dirigentes. Claro está que existirão exceções; por vezes recruta-se bem, por acaso. No entanto, levando eu uma vida inteira a recrutar, observo a forma leviana como muitos dirigentes são escolhidos, muitas vezes com a desculpa que no CV tem um percurso muito rico (sem que as pessoas entendam qual foi o sucesso profissional durante esse rico percurso) confundindo-se anos de experiência com experiência de sucesso. A competência não advém automaticamente de fazer algo há muitos anos, mas sim de ter demostrado eficácia e eficiência durante o período em que se desempenharam determinadas funções.

Existem técnicas de recrutamento e seleção provadas e utilizadas à exaustão por empresas bem-sucedidas. E funcionam! Se não, essas tais empresas bem-sucedidas não pagavam por esses serviços. E numa economia onde muito do que existe é público, a responsabilidade de ter gente competente na administração ainda é maior. Porque o dano da incompetência num país com serviços públicos muito extensos é muito superior ao de estados mais liberais, onde o peso do estado é menor, é fundamental que se leve o tema da competência ao mais alto grau de exigência possível.

A bem de todos nós.

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