Planifi…kó…kê?

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário.

“O Presidente da República já enviou o decreto para renovar o estado de emergência por mais 15 dias. Marcelo pressiona Costa a planear desconfinamento.” (in dn.pt, 24/02/2021).

Ou seja, o Sr. Presidente da República tenta que Portugal e os portugueses sejam, por uma vez, o que efetivamente não são, nem nunca foram: planeadores. Planear é algo que nunca fez parte da mente lusitana, infelizmente. Ora senão vejamos: quando D. Afonso Henriques se atirou aos espanhóis não planeou a reação da senhora sua mãe e, depois, foi o que foi. Quando Pedro Álvares Cabral zarpou de Lisboa não tinha de todo planeado o que fazer ao mínimo desvio de rota e alteração dos ventos, o que o levou a descobrir (achar) o Brasil totalmente por acaso. E que dizer de Fernão de Magalhães? Estou convencido que, tivesse ele planeado a viagem ao detalhe, não teria tido a capacidade de realizar a circum-navegação.

Nós, infelizmente, não planeamos. Nós somos os que andam alegremente ao sabor dos acontecimentos, desenrascando aqui ou ali uma solução. Esta forma tão portuguesa de estar na vida é o que nos caracteriza, o que nos granjeou algumas alegrias mas, lastimavelmente, também muitas tristezas. A falta de planeamento e, sobretudo, de vontade de planear é o que, provavelmente, tem mais afetado a economia portuguesa. É esta a razão principal para a nossa falta de produtividade. Sim porque, atendendo a que a força de trabalho (os portugueses) é exatamente a mesma que ganha prémios de produtividade em países onde tudo é planeado ao detalhe – países chatos, aborrecidos, castradores da criatividade “do tuga” e que não permitem largas à imaginação do trabalhador na realização das suas tarefas – a diferença está na falta de enquadramento dos mesmos, no planeamento dos processos e na distribuição de tarefas.

Os exemplos desta triste realidade são muitos. Veja-se o recente: “Ao contrário de outros países, portugueses acima dos 80 anos não têm prioridade máxima na vacinação” (in Observador.pt, 26/12/2020) que levou a uma alteração radical em semanas e durante o período natalício e de fim de ano para: “O Governo atualizou o plano de vacinação para incluir os mais velhos sem doenças de risco” (in jornaldenegocios.pt 25/01/2021) e que provocou inúmeras alterações ao plano de vacinação inicial com as consequências que todos sabemos. Foi igualmente a ausência de um planeamento correto que levou a que, onde havia vacinas, faltassem seringas ou profissionais para as administrar “Faltam seringas para administrar vacinas” (in rtp.pt, 6/02/2021) e, onde havia seringas e profissionais, não houvesse vacinas. Isto já para não mencionar a ausência de planeamento em relação ao que fazer com as sobras.

Mas, a julgar pelo que foi publicado pela própria DGS: “A Direção-Geral da Saúde criou (Despacho de Criação datado de 4 de novembro de 2020) uma comissão técnica de vacinação contra a covid-19. O plano de vacinação a ser elaborado pelo Governo deverá ser apresentado no início de dezembro” (in publico.pt, 18/11/2020), o que se podia esperar de um plano feito no máximo em 26 dias?

Trata-se de mais um perfeito exemplo da nossa incapacidade em planear convenientemente, já que só quem nunca planeou nada é que acredita que é capaz de produzir um plano com a complexidade de um plano de vacinação nacional em 26 dias. E, pior, de divulgar esse facto publicamente como algo positivo.

Outro exemplo: “Não há computadores para todos. Falta dinheiro ou planeamento? O Governo não soube antecipar e solucionar os problemas do ensino à distância a tempo…” (in observador.pt, 5/02/2021).

Ainda para o mesmo lote entra a ausência total de planeamento na definição inicial das regras deste novo confinamento. A saber: Se as escolas continuavam ou não a funcionar, se as férias eram obrigatórias ou não, etc. No momento em que já se regressou ao ensino remoto, a pergunta é: qual a razão para os 15 dias de férias iniciais compulsórias?

E, por fim, um dos casos que mais afetam o gasto de dinheiro público é a falta de planeamento das obras públicas: “Incompetência crónica na política de obras públicas. Partidos criticam decisões do Governo. O PSD, o PCP, o PAN, o Bloco de Esquerda e o CDS concordam: falta um planeamento coeso nos projetos estruturais do país” (in tsf.pt, 5/03/2020). Quanto é que já custou o tão ansiado novo aeroporto de Lisboa, em estudos, em discussões e em alterações de local?

Mas não é só em relação às falhas na falta de planeamento que existem bons exemplos. Também os há na falta de cumprimento de planos previamente traçados, tal como naquele que é, porventura, o expoente máximo da nossa incapacidade em seguir um plano traçado por outros ou de fazer cumprir algo planeado por quem quer que seja, que não o próprio: a infeliz novela da TAP. Algo que o governo do Dr. Passos Coelho já tinha “empandeirado” como mono e que o governo do Dr. António Costa, não querendo seguir o plano previamente traçado, tão diligentemente foi novamente trazer para o erário público com o singelo custo previsível de: “TAP precisa de 3,72 mil milhões de euros até 2024…” (in eco.sapo.pt, 11/12/2020)

Assim, não é de admirar que António Costa ainda não tenha um plano de desconfinamento para apresentar ao Sr. Presidente da República – que o pediu há 15 dias e que continua a pedi-lo. António Costa não o tem porque, em primeiro lugar, e como já vimos, vai contra a nossa natureza planear o quer que seja. Em segundo, porque para planear é preciso saber e ninguém gosta de fazer e muito menos de aprender a fazer o que lhe é contranatura. E, em terceiro lugar, porque, pior do que fazer um plano, que embora seja para entregar ao Sr. Presidente da República será, invariavelmente, divulgado publicamente, vai ser preciso cumprir esse plano. E é aqui que, “cruzes canhoto”! É aqui que “a porca torce o rabo”, é aqui que o Sr. Primeiro-ministro tem um grave “problema à perna” e que consiste em cumprir e fazer cumprir esse mesmo plano.

Acredito que o que o Dr. António Costa deseja evitar é ter de, além de todas as responsabilidades que lhe pesam nos ombros, ainda vir a público dar continuadas justificações sobre todos os incumprimentos que irão verificar-se relativamente ao seu plano e que, prevejo, serão muitas.

Para nós portugueses, não ter um plano não é tão grave como a infelicidade de ter um que nos obrigue a seguir um determinado caminho traçado por outros, sem nos deixar a hipótese de, a nosso belo prazer, o poder alterar e ajustar conforme o que nos parece mais adequado a cada momento, alterações essas sustentadas em razões perfeitamente válidas e amplamente partilhadas nas chamadas conversas de café: “Esta malta dos gabinetes não percebe nada do que se está a passar no terreno…” ; “Eles não sabem mais disto que eu…” ou ainda “Que parvoíce, não sou obrigado a seguir isto que não faz sentido nenhum. Eu é que sei o que é preciso aqui…”.

Temo que, mal o plano de desconfinamento seja apresentado, o “desporto nacional” será criticar o mesmo. Isto porque, qualquer que este seja, nunca estará adequado à defesa de todos os interesses de cada um, embora possa estar adequado à defesa dos interesses de todos.

Defendo totalmente a necessidade de um plano. Não só a necessidade de planear – e planear bem – mas, sobretudo, a de o fazer cumprir. Mas, neste caso em que mais uma vez, e para não variar, estamos novamente atrasados face aos nossos congéneres europeus, recomendaria que lessem e retirassem dos planos dos países com grandes tradições em planeamento o melhor desses planos e o adaptassem à nossa realidade. Evitem inventar um plano de raiz e não se deixem cair na tentação de voltar a “reinventar a roda” porque, como já vimos com o recente plano de vacinação, foi preciso voltar atrás e refazer tudo. Por uma vez, copiem e compilem o melhor dos planos dos outros e, também por uma vez, tentem cumprir e fazer cumprir o que apresentarem como versão final.

Este, sim, será o maior desafio dos próximos meses.

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