Carta aberta

Por Nuno España, Gestor

Querido Tomás,

Apesar da minha enorme paixão pelo rugby, na verdade nunca fui um bom jogador. Confesso que sempre me considerei bastante mediano. Comecei tarde, continuei na faculdade e os meus últimos jogos foram no Dubai enquanto estava a fazer o MBA, há 12 anos atrás.

É verdade que levo um conjunto de lesões para a vida, mas é também igualmente verdade que levo ensinamentos que sempre estiveram e estarão comigo e, por esses, considero que valeu a pena. Geralmente as melhores lições vêm com “sangue, suor e lágrimas” e neste caso também não foi exceção.

É verdade que o rugby é um jogo duro, agressivo e por vezes magoa, mas nunca será violento. No rugby transbordam códigos de conduta que todos conhecem e vivem. É verdade que, por vezes, há excessos e erros, mas quem não os faz? O importante é o que fazemos com eles e confesso que não me recordo de ver um jogador após um jogo não reconhecer as suas falhas e pedir desculpa pelas mesmas.

É verdade que há momentos difíceis de perceber para quem está de fora, como se pode estar magoado e continuar, mas isso acontece porque ninguém quer deixar a sua equipa desfalcada, em situação de inferioridade, e comprometer todo o trabalho árduo que foi feito para chegar até ao dia do jogo.

Gosto de futebol mas adoro tudo o que o rugby significa. Todos são iguais, apesar das inúmeras diferenças, e isso vê-se até na forma como os jogadores se vestem. Nas camisolas não há nomes. Apenas números que indicam a posição em campo, porque mais que ser alguém, o que realmente é importante é que cada um, à sua maneira, contribua para um bem maior que todos eles. Quando se celebra um ensaio ou uma vitória, não se refere quem marcou mais ou fez mais assistências, porque a equipa será sempre mais importante que o jogador.

No rugby temos constantemente lições de desportivismo, mas, acima de tudo, lições de vida. Vemos verdadeiros campeões, que quando não jogam, servem água aos restantes jogadores ou, no final, limpam o relvado e o balneário. Ninguém é mais que os outros e o mínimo é deixar tudo como se encontrou.

O respeito pelos adversários é enorme e reconhecido, porque sem eles não haveria jogo. Não haveria luta e muito provavelmente não haveria rugby. Igualmente impressionante é a forma como os jogadores respeitam as decisões do árbitro sem nunca as questionar e a equipa que perde não culpabiliza ninguém mais senão os próprios, porque naquele dia simplesmente houve outra equipa que foi mais e melhor. Não há perdas de tempo ou simulação de falta porque simplesmente há um jogo a decorrer e é para ser jogado.

Na maioria dos desportos, somos atletas até deixarmos de praticar. No rugby é diferente. Todos aqueles que conheço que já jogaram continuam a ser de alguma forma jogadores de rugby, porque é parte intrínseca deles. Rapidamente se reconhece alguém que jogou rugby, porque tudo isto fica para a vida. O adversário é rival em campo, mas será sempre um companheiro fora dele. Sinal disso é a forma como todos festejam juntos a “3ª parte” do jogo, geralmente no bar do clube, depois de terem deixado tudo no campo de batalha.

Este fim de semana jogaste o teu primeiro torneio de rugby e não imaginas a alegria, o entusiasmo e orgulho que senti ao ver-te no campo, como há muitos anos também eu estive. Apesar dos teus 6 anos, vi-te com os teus companheiros, a viver grande parte de tudo o que acredito que é o rugby.

Tens uma enorme paixão por este jogo que me enche de orgulho. Não sei se jogarás muito ou pouco na vida mas fico feliz com tudo o que o rugby já te deu. Vi-te a vibrar no banco da mesma forma como vibraste em campo. Apoiaste os teus companheiros e respeitaste os teus adversários, ajudando-os a levantar quando se encontravam no chão ou simplesmente se magoavam. Festejaste as vitórias e aprendeste com as derrotas. Respeitaste sempre os teus treinadores e o árbitro, porque também eles são peças fundamentais para que o rugby seja  possível. Tive ainda oportunidade de ver o teu irmão António apoiar-te e vibrar com os teus jogos, ficando claro a amizade que vos une, a preocupação e apoio que têm um com o outro e a forma como se respeitam sem partilharem o mesmo desporto.

Se há coisa que o rugby me ensinou foi a dar. A dar o melhor de mim e a trabalhar para ser a melhor versão de mim mesmo. Ao dar,  ajudaria outros e eles a mim. É isso que fica para a vida e é isso que te desejo. Fico muito contente que sejas feliz a jogar mas fico ainda mais feliz pela forma como, sem te aperceberes, o rugby está a fazer de ti um Homem de H grande.

Um grande beijinho,

Pai

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