As Tendências de Negócio para o Agro

Por Luis Rasquilha, CEO da Inova TrendsInnovation Ecosystem (Research, Consulting, Business School, Online, Club, Tech). Professor da Fundação Dom Cabral (FDC), Hospital Albert Einstein e ESALQ/USP (Universidade de São Paulo). Conselheiro Consultivo da Mercur do Brasil.

Inicio com este artigo uma série de tendências setoriais, apresentadas no Inova Day de 2022, com uma das áreas de negócio mais relevantes da economia: o Agronegócio.
O Agronegócio tem sido um dos principais motores da economia global devido à explosão demográfica que aumenta a necessidade de insumos alimentares.
A chegada da tecnologia e de uma nova geração de produtores agrícolas tem catapultado este setor para a ribalta económica, digital e produtiva. O produtor rural um pouco pelo mundo começa a ser representado por nova geração que está a assumir de forma muito mais profissional a gestão de uma grande parte dos negócios familiares e conectado às grandes cooperativas e multinacionais. São gestores que já estão online, sedentos de conhecimento e à procura de informação em diversas fontes, exigindo uma maior proatividade na forma de atuar por parte de empresas, distribuidores e cooperativas.

Podemos caracterizá-los através de alguns eixos bem interessantes (Fonte: ABMRA, International Telecommunication Union – CEB – Gartner, Horizon Company):

  • É jovem〈30 (Millenial) e representante da chamada geração Nativa Digital;
  • Compra de forma independente online através de soluções digitais que começam a despontar nos mercados;
  • Pouco influenciado pelas relações do passado uma vez que está bastante envolvido com as movimentações atuais e evoluções tecnológicas em constante evolução;
  • Faz tudo no smartphone onde acessa tudo de forma integrada. Ainda existem algumas, naturais, limitações de conexão em algumas regiões do globo, que tendem a ser resolvidas com a chegada e massificação do 5G;
  • Toma decisões utilizando o digital farming uma forma mais rápida, segura e efetiva de usar as soluções tecnológicas e a digitalização;
  • Procura e aprende nos canais digitais, onde conteúdo é gratuito e de fácil acesso;
  • Conveniência e Portfolio diversificado são críticos na decisão uma vez que existem diversos players que vencem a barreira da distância e que podem estar conectados o tempo inteiro;
  • Serviço após-venda e serviços como um todo são cada vez mais importantes do que apenas o preço, o que revela uma grande mudança de mentalidade na forma e gerenciar os negócios.

Nesse sentido temos assistido a várias mudanças e muitas evoluções no que ao Agronegócio diz respeito. E esses movimentos podem ser sistematizados em 8 grandes tendências e suas respetivas caracterizações e impactos:

  1. Planeta menos previsível
  2. Foco na saúde e na qualidade de vida
  3. Preocupação com a EcoSustentabilidade
  4. Clientes mais exigentes
  5. Mundo globalizado
  6. Cadeia de valor inteligente
  7. Integração de canais | Omnicanal
  8. Digital farming

Vejamos cada uma delas em detalhe:

  1. Planeta menos previsível

Com o notório crescimento populacional e maior busca por recursos, assistiremos a maiores volatilidades do planeta e por consequência menos previsibilidade, o que impacta os ciclos produtivos e as decisões de longo-prazo.

O que caracteriza esta tendência:

  • Queda da qualidade e da quantidade dos recursos naturais disponíveis;
  • Instabilidade climática crescente;
  • Queda da biodiversidade;
  • Aumento da virulência de micro-organismos e parasitas e aumento da resistência antimicrobiana;
  • Exigência crescente por comportamentos ambientalmente mais responsáveis.
  1. Foco na saúde e na qualidade de vida

Um tema cada vez mais presente, fruto da evolução da humanidade, na busca de melhores índices de qualidade de vida que naturalmente influenciarão cada dia mais a lógica de gestão e o processo produtivo.

O que caracteriza esta tendência:

  • Envelhecimento da População;
  • Aumento de doenças crónicas;
  • Crescente importância com saúde e bem-estar;
  • Aumento da importância da segurança alimentar;
  • Aumento da procura por produtos orientados ao equilibro de corpo e mente.
  1. Preocupação com a EcoSustentabilidade

Com a marca de 8 bilhões de pessoas a ser atingida em breve no planeta a preocupação com as pautas sustentáveis tem crescido ano após ano. E essa preocupação ganha muito mais força pela mão e exigência dos consumidores do que propriamente pela mão das empresas. A pressão será cada vez mais constante do mercado, na inversão do ciclo que passa a ser dominado do mercado para a produção.

O que caracteriza esta tendência:

  • Aumento da consciência sustentável – ESG;
  • Maior exigência por produtos sustentáveis e amigos do ambiente;
  • Busca pela maior racionalização de recursos em toda a cadeia de valor;
  • Avaliação de marcas e empresas dependerá cada vez mais da sua pegada sustentável;
  • Integração crescente de novos players com DNA sustentável no Mercado.
  1. Clientes mais exigentes

Fruto da maior conectividade e acesso fácil a conteúdos e ofertas digitais o conhecimento alarga-se, democratiza-se e a exigência aumenta em todos os níveis. Qualidade, compromisso, legado são indissociáveis na escolha de prestadores de serviços e marcas presentes nos mais variados mercados do Agro.

O que caracteriza esta tendência:

  • Aumento do poder de compra da classe média Asiática;
  • Urbanização crescente;
  • Maior demanda por conveniência, consumo fora de casa, experiências gastronómicas e ofertas customizadas (turismo gastronómico);
  • Aumento da demanda por informações de origem e reputação das marcas presentes nos mercados;
  • Maior disposição do consumidor para mudar.
  1. Mundo globalizado

A globalização dominante hoje é sem dúvida a globalização digital, que se tem sobreposto às globalizações culturais ou económicas, por exemplo. Ela permite uma maior velocidade das informações e naturalmente um acesso mais amplo às ofertas, recomendações, críticas e resultados. E isso pauta a decisão de clientes, parceiros, fornecedores e sociedade com o apoio da velocidade (não sói digital) e a agilidade como grandes forças.

O que caracteriza esta tendência:

  • Aumento da cadeia de valor conectada;
  • Maior exposição a produtos e serviços de outras regiões e culturas do planeta;
  • Concorrência globalizada internacionalmente;
  • Aumento dos riscos de biossegurança;
  • Grande possibilidade de problemas de supply.
  1. Cadeia de valor inteligente

Um dos grandes temas hoje é sem dúvida a cadeia de valor cada vez mais ampla, diversificada e naturalmente inteligente, no tratamento de dados, na gestão de processos e na entrega de valor.

O que caracteriza esta tendência:

  • Aumento mundial da demanda por alimentos;
  • Crescente preocupação com questões de segurança;
  • Maior penetração de ferramentas e soluções Big Data e Analytics para o Agro;
  • Crescimento da conexão e dos negócios de e-commerce, marketplace e plataformas;
  • Integração verticalizada, descentralizada e não linear da cadeia de valor tradicional, tornando-a mais ágil e flexível;
  1. Integração de canais | Omnicanal

Não sendo um tema novo em nenhum mercado, ganha no Agro cada vez mais relevância, uma vez que sendo o cliente um só e conectado, há que chegar a ele através de diversos pontos de contato que devem estar integrados na gestão da relação, de dados e da oferta.

O que caracteriza esta tendência:

  • Mundo físico e digital aproximam-se cada vez mais;
  • Aumento da transferência de recursos do fisico para o digital;
  • Varejo mais complexo e completo nos pontos de contato (touchpoints);
  • Crescente adoção tecnológica nos negócios para melhorar relacionamento;
  • Maior conhecimento do cliente e consequente ajuste das ofertas, dos portfolios e das soluções.
  1. Digital farming

Não menos importante, embora seja a última desta lista, a tecnologia chegou decisivamente ao Agro acelerando produção e agregando valor em toda a cadeia. Indústria 4.0 deu início a uma jornada digital sem precedentes, alterando a lógica global do Agri.

O que caracteriza esta tendência:

  • Transformação digital como centro da mudança dos negócios;
  • Inteligência artificial e internet das coisas substituirão as funções operacionais;
  • Gestão do conhecimento permanente para otimizar a produção e maximizar a equação custo-benefício;
  • Monitoramento permanente e completo de toda a operação remota e mobile;
  • Plataformas digitais de produtos e serviços complementares;
  • Blockchain em toda a cadeia de valor.

A pergunta que agora se coloca é: o que fazer com tudo isto? Naturalmente cada profissional do setor fará a sua interpretação e respetiva decisão, até porque é possível realizar recortes específicos deste tema caso falemos de grão, café, frutas, legumes ou plantas, por exemplo. Mas partir desta base já é um grande avanço para manter um trabalho de atualização permanente do Agronegócio.

Mas existem algumas recomendações necessárias para a melhor utilização a info. A meu ver são:

  1. É necessário estabelecer uma base de educação continuada para que colaboradores e elementos do negócio estejam a par das mudanças e evoluções tecnológicas em curso e as que já se desenham no futuro;
  2. A forma de fazer negócio mudou e é necessário adotar (ou testar pelo menos) novas formas e ideias produtivas e de comercialização da produção realizada;
  3. Incorporar soluções tecnológicas ajustadas à realidade de cada produtor ajudará a antecipar riscos e aproveitar as oportunidades;
  4. Abrir-se aos ecossistemas e à colaboração vai sem dúvida levar o negócio para um novo patamar;
  5. Não assumir que o bom momento do agro se irá perpetuar pois poderemos vivenciar alterações das variáveis externas e por isso é necessário manter um cuidado constante no monitoramento dos cenários e das tendências;
  6. Realizar regularmente análises de cenários e tendências e refletir isso na decisão estratégica trará certamente ganhos constantes ao negócio.
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