As nossas elites

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Reconheço que escrevi este texto triste, faleceu um amigo que foi um líder inspirador. O João Gomes Esteves merece ser lembrado pela forma como viveu, humilde e sensato, equilibrado e justo. Fazia parte de uma elite que me inspirou e inspira, onde outros nomes pontificam: (para simplificar retiro os títulos com todo o respeito) Sá Carneiro, Álvaro Cunhal, Marcelo Rebelo de sousa, António Costa, cavaco silva, Ramalho Eanes, Fernando Ruas, Belmiro de Azevedo, António Guterres, António J. Seguro, Passos Coelho, Clara Raposo, Almeida Lopes, Carlos Silva, António Saraiva, isabel Vaz, Clara Carneiro, Leonor Beleza, Vítor Escária, Maria de Belém, Eduardo Rangel, Rui Ivo, Ricardo Florêncio, Paulo Macedo, Álvaro Covões, Neves de Almeida, joão Duque, Rebelo de Almeida… perdoem-me os muitos que deveriam ter aqui o nome, mas por critérios de espaço, não estão. São tantos os nomes que pensam o país ou a sua área, sem colocar o seu interesse à frente do mesmo. São estas as elites que devemos ter como referência. Que devíamos ensinar nas aulas de cidadania, pois pensaram a sociedade e no novo modelo da mesma, depois de perdermos muitas das referências que tínhamos (família por exemplo). Que devíamos colocar como comentadores na TV, criar youtubes, divulgar as suas ideias de forma a influenciar os cidadãos, nomeadamente os jovens. De forma a aumentar a literacia, o sentido de comunidade e de moralidade, de justiça e educação. 

Mas infelizmente são escolhidos muitos nomes errados que criam opinião, conflito, ignorância. Pessoas que apenas estão nos meios de comunicação social para se promoverem ou porque não têm alternativas profissionais. São aqueles do “eu sei porque sou amigo do primo do porteiro que é casado com a mulher que trabalha na casa do fulano de tal”…. 

E agora vão-me perdoar mas vou fazer algo que não gosto, pois é uma crítica pouco construtiva, no entanto realista. A comunicação social apenas dá ao público o que este quer. Os romanos davam espectáculos no coliseu e nós temos os espectáculos na TV, redes sociais e jornais! A culpa não é da comunicação social mas dos critérios comerciais gerados pelas audiências, que geram falta de critério para criar referências por parte do público e da opinião pública. Os fazedores de opinião não são as elites que falei atrás, aliás julgo que nem querem ser misturados neste “filme”.

Um dos expoentes Máximos são os políticos ou ex-políticos que pululam a criar factos políticos de coisa nenhuma ou a promover a sua idiossincrasia (não ideologia pois nem sabem o que isso é) em jeito de pré-campanha “wild Wild West”. Como são sempre pré candidatos a qualquer coisa, interessa ter este espaço de opinião pública. 

Temos também os programas do estilo “reality show” em que temos de fazer uma lobotomia para entender o que dizem os participantes; que devem ser escolhidos pelo número elevado de tatuagens que têm (com todo o respeito por quem tem tatuagens) e não pelo QI, cujo valor acrescido de uns pontos, lhes permitiria ladrar (no máximo e sem querer ofender o mundo canino).

Também temos os noticiários em que os factos mais aberrantes do estilo “nasceu com 3 umbigos” são o expoente máximo e repetidos até á exaustão. E se não existissem factos, acho até que os jornalistas provocariam um acidente com vitimas, apenas para ter notícias escandalosas para transmitir. E a culpa não é dos jornalistas, muitos mal pagos e com pouco tempo para investigar. É do público, pois este “gosta de sangue”. 

O exemplo máximo está nos programas de futebol, onde quanto mais “grunhos” melhor, a falar e opinar sobre as mesmas coisas desinteressantes, insultando-se e passando todo o programa a olharem para os telemóveis para saber das novidades. Representam os clubes sem os quererem formalmente representar, para parecerem idóneos. 

Em suma, apesar de difícil, entendo porque é que alguns opinam que os meios de comunicação tradicionais, o dito quarto poder, deveria ter apoio económico idóneo, ético, transparente, para poderem investigar, pensar, divulgar e influenciar. Com o critério comercial como base mas orientados pela qualidade, filtrada por uma “bateira de garimpo “ em que apenas os resíduos socialmente verdadeiros, pedagógicos e válidos podem maioritariamente existir. O quinto poder, o mundo digital, serve para divulgar a opinião individual, com um filtro menor, mas livre e não editado. Apenas o critério da boa educação, da verdade e da convivência social equilibrada deve nortear este meio. A liberdade, claro está, acarreta responsabilidade. 

Devemos portanto exultar as elites a reequilibrar esta balança, para podermos elevar a literacia cultural e podermos aspirar a deixar de ser vistos com condescendência. Não falo da elite política ou económica, interesseira por definição. Mas da elite social e comunitária, em que a independência, superioridade moral e intelectual serve para reduzir o alheamento da sociedade civil do seu futuro. E é tão necessário que isto aconteça!

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