As MegaTendências para 2030

Por Luis Rasquilha, CEO da Inova TrendsInnovation Ecosystem (Research, Consulting, Business School, Online, Club). Professor da Fundação Dom Cabral (FDC), Hospital Albert Einstein e ESALQ/USP (Universidade de São Paulo)

Foi recentemente apresentado o Relatório de Tendências atualizado para década, produzido pela Inova Consulting, sob o nome de What’s Next 21, Direção 2030, um relatório que enumera as diversas perspectivas que as tendências trazem para o futuro próximo.

Veja abaixo a visão geral do What’s Next 21 (Direção 2030).

A primeira grande lente de análise foi tratada no artigo anterior dedicado às forças motrizes.

Neste artigo gostaria de apresentar e convidar à reflexão sobre quais são as MegaTendências passíveis de análise nesta década, enumeradas por cada força motriz.

Definido MEGA TENDÊNCIAS (10 / + anos): movimentos e mudanças (de larga escala) em termos sociais, económicos, políticos, ambientais e tecnológicos, que se manifestam de forma consistente na realidade atual e que influenciarão decisivamente o futuro.


MEGATENDÊNCIAS por cada força motriz


1) Tecnologia e Conectividade

  1. Evolução Tecnológica: O fenômeno dos smartphones, iniciado em 2007 pela Apple, alterou completamente o comportamento humano e iniciou um fenómeno de influência decisiva sobre mercados, negócios e empresas, a partir do momento em que tudo passou a estar à distância de um click disponível nos milhares de apps que se tornaram presentes em nossas vidas, fruto da simplicidade e queda de preço com que a tecnologia nos envolveu.
  2. Conectividade Permanente: A conectividade assumiu decisivamente o poder, conectando pessoas e empresas de forma permanente, potenciando as relações, a troca de informação e o diálogo 24/7 (24 horas por dia, 7 dias por semana) facilitada a partir da convergência tecnológica e do surgimento constante de novas soluções nas áreas de vestíveis, implantáveis, realidade aumentada, impressão 3D, internet das coisas ou inteligência artificial. Com uma previsão de atingir 100% da população conectada entre 2022 e 2025, quem não estiver conectado e, principalmente, quem não entender a convergência tecnológica estará irremediavelmente fora do jogo.
  3. Humanismo Digital: Na pauta dos negócios, a transformação digital concedeu à inovação o estatuto de um imperativo categórico: empresas que não se reinventam, definham. Se imaginarmos um mundo altamente dependente da inteligência artificial, profundamente sensibilizado por tais algoritmos em situações comuns, corremos o risco de que as máquinas – uma vez instruídas segundo nossas intenções de automatização para perseguir a sua função objetivo (aquilo para o qual elas foram programadas) – incompatibilizem seus êxitos com os valores e necessidades humanos. Em meados de 2019, cientistas e pesquisadores de diversos países, publicaram um manifesto (The Vienna manifesto on Digital Humanism) onde se declara que as tecnologias digitais estariam desbotando a dinâmica e os alicerces da sociedade e colocando em xeque o nosso entendimento sobre o que significa ser humano. Com o tom de reinvindicação para deliberar e atuar no desenvolvimento tecnológico atual e futuro, o manifesto encoraja a inovação centrada nos valores e necessidades humanos. Com efeito, este é o núcleo do assim denominado Humanismo Digital.


2) Ambiente e Clima

  1. Alterações Climáticas: A preocupação com as mudanças climáticas e com a questão sustentável tem crescido e mobilizado cada vez mais pessoas em torno do tema. É um fato que o planeta está vivendo (muito pela culpa da intervenção humana) uma mudança climática sem precedentes com impactos enormes nos recursos naturais e na qualidade ambiental. A consciência sobre o ambiente é cada vez maior e tende a assumir mais importância nas agendas das pessoas, empresas e governos mobilizando todos para um movimento comum de maior sustentabilidade, maior consciência e ação. Quem não considerar em suas estratégias este tema será afastado, não só pelos governos e pelas mais apertadas leis mas, principalmente, pelos consumidores que não terão problema em descartar uma marca que não se comprometa com práticas mais sustentáveis e amigas do ambiente e que não defenda a mobilização de todos à sua volta, na busca de um planeta melhor para todos.
  2. Alternativas em Recursos Naturais: A crescente preocupação com o tema ambiental e a demanda de recursos tem gerada uma busca constante por alternativas que permitam a manutenção dos índices de produtividade e a crescimento económico, mas com reduzido (se possível nenhum) impacto sobre o planeta. Os recursos são finitos e como tal a agenda focada em alternativas ganha força, atenção e cobrança na sua implementação permanente.
  3. Novos Recursos Energéticos: Estamos chegando no fim da era dos combustíveis fósseis como pilares estratégicos do mundo e assistindo ao emergir de novas iniciativas que visam proteger, não apenas o planeta de poluição, mas otimizar os custos de produção para os usuários. Com o aumento populacional, a chegada dos autónomos e a crescente conectividade aumenta a demanda global por energia e com isso a necessária procura de novas soluções que consigam responder ao que o mercado vai necessitar. A velocidade exponencial levará à busca por recursos exponenciais considerando, por exemplo, desde dessalinização da água do mar até á utilização de matérias primas vindas de outros planetas.

3) Política e Economia

  1. Globalização: É o processo de aproximação entre as diversas sociedades e nações, seja no âmbito econômico, social, cultural ou político. Porém, o principal destaque dado pela globalização está na integração digital e de mercado existente entre os países. A globalização permitiu uma maior conexão entre pontos distintos do planeta, fazendo com que compartilhassem de características em comum. Desta forma, nasce a ideia de Aldeia Global, ou seja, um mundo globalizado onde tudo está interligado. A quebra de fronteiras gerou uma expansão capitalista onde foi possível realizar transações financeiras e expandir os negócios – até então restritos ao mercado interno – para mercados distantes e emergentes. Atualmente, o idioma inglês é considerado o mais adotado entre todos os países como alternativa para garantir a comunicação, principalmente através da internet. Motivada pela conexão, a velocidade com que tudo acontece é cada vez maior. Ao estarmos mais conectados em rede também conseguimos ter cada vez mais poder. Uma pessoa sozinha tem determinada influência mas quando se junta ao grupo ganha um poder imparável.
  2. Força e Poder da Sociedade: A força da sociedade conectada e globalizada está assumindo o seu papel de influenciadora e transformadora do mundo, ultrapassando a tradicional atuação das marcas no esforço de se promoverem através dos chamados canais tradicionais. A avaliação de um hotel no tripadvisor tem muito mais credibilidade do que a comunicação do hotel em si, uma vez que essa nota resulta da opinião de quem já frequentou esse hotel. Da mesma forma, a avaliação que um motorista do uber apresenta transmite maior ou menor segurança a quem irá utilizar os seus serviços posteriormente. Por outro lado, a forma como todos em todo o lugar acedem à informação potencia uma escala verdadeiramente global de tudo o que acontece, assistindo-se a um movimento de globalização digital, profundamente transformador da sociedade em que vivemos.
  3. Novas Economias: O poder que a Europa e os USA tinham perdeu força para os chamados BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – South África) e o mundo tem caminhado para uma maior globalização. Novos países estão ditando as regras e as mudanças globais. Seja por posição estratégica ou capacidade produtiva e abertura à mudança o ecossistema em torno da China e da Índia afirmar-se-á como pólo produtivo e consumidor. Novos acrônimos substituirão os BRICS e veremos o crescimento dos MINT (México, Indonésia, Nigéria e Turquia) e dos SICK (Síria, Índia, Coreias Unificadas) contaminando geograficamente as regiões onde atuam com melhorias consideráveis da qualidade produtiva e de vida das populações. Aqueles que antes eram países não estratégicos estão mudando a tabela da classificação, seja pela adoção de novas tecnologias, seja pela mudança de mindset e maior capacidade de adaptação e flexibilidade.


4) Social e Humano

  1. Envelhecimento e Explosão Demográfica: A expectativa de vida tem aumentado de forma permanente, registando hoje um aumento de 3 meses de vida por cada ano. Nos próximos anos, a expectativa de vida aumentará mais de 1 ano por ano. Isto significa que chegaremos à marca de 120/130 anos de expectativa de vida na próxima década. Tendo o planeta atingido já a marca de 7 bilhões de pessoas e caminhando para chegar a 8 bilhões até 2030, estamos enfrentando uma realidade de termos mais gente, durando mais tempo e com isso criando novas realidades de coexistência entre as várias gerações. É hoje normal encontrar em uma mesma empresa pessoas das várias gerações (baby boomers, x, y e já a z também). Isso abre inúmeras oportunidades e demonstra a evolução que a humanidade está vivendo.
  2. Busca pelo Novo e Desconhecido: Nunca como agora o desconhecido foi tão atrativo. Filmes, séries, livros e tanta informação tem sido estruturada em torno do que não conhecemos. Universidades, centros de estudo e de investigação, empresas e laboratórios de P&D, professores das mais variadas origens e áreas de atuação, empreendedores, empresários e figuras públicas, têm dedicado tempo e investido recursos (humanos, técnicos e financeiros) para tentar desvendar o novo e o desconhecido dentro de nossas mentes, em nossos corpos, na natureza, nos animais, no espaço e em outras galáxias. Seja para fortalecer a base de conhecimento ou para tentar encontrar soluções para problemas atuais, nunca existiu tanta preocupação com o desconhecido, gerando uma crescente mobilização sobre territórios inexplorados. Esse sentimento de busca pelo desconhecido deixou as telas dos filmes de ficção, entrou nas empresas, nos negócios e nas nossas vidas e permitirá às empresas encontrarem novos caminhos para os seus negócios e para os seus (atuais e novos) mercados. Viveremos a colonização do espaço, a importação de matérias primas interplanetárias e quem sabe até contato com outras espécies.
  3. Maior Transparência e Redução das Desigualdades: O fenômeno da digitalização e da conectividade tem dado uma preciosa contribuição para conscientizar o mundo sobre muitas coisas que antigamente não sabíamos que existiam, ou se sabíamos não tínhamos como provar. Principalmente sobre ameaças à humanidade e desigualdades de todos os níveis. A designada 4ª Revolução Industrial tem o potencial de tornar as desigualdades visíveis e com isso forçar governos, instituições, personalidades e a própria sociedade a atuar para a sua redução. Nunca como agora a pressão social sobre governos e personalidades pela via da digitalização (redes sociais, grupos de whats app e demais ferramentas de conexão) teve tanta força e impacto na mobilização e atuação efetiva para reduzir desigualdades. Assistiremos a um crescimento exponencial da busca pela transparência (nos negócios, nas políticas, nas relações) e uma maior mobilização pelo impacto social de cada um para um mundo melhor.


5) Saúde e Bem-estar

  1. Evolução Genética: Os avanços genéticos em todas as áreas têm reescrito muitas das páginas consideradas intocáveis na história. Seja no âmbito da medicina, alimentação ou reprodução, a genética tem contribuído decisivamente para a evolução da humanidade.
  2. Busca de Equilíbrio: O ressignificar de prioridades, dos propósitos e dos valores tem deixado claro que a sociedade busca um equilíbrio. Se antes era carreira ou família, por exemplo, hoje é um e outro. Não mais um ou outro. O equilíbrio entre produção e consumo, entre exercício e alimentação, entre entretenimento e descanso (e tantos outros) reforça o entendimento que existe maior consciência para a adoção de caminhos equilibrados (ou caminhos de meio) em detrimento de extremos, nunca saudáveis.
  3. Humanos 2.0: Ao mesmo tempo, a elevada dependência da conexão tem nos transformado de tal forma que já se afirma que esta é a última geração de homo sapiens (frase proferida por Yuval Harari na última convenção de Davos), caminhado para a chamada geração algorítmica ou singular. A singularidade representa um evento histórico previsto para o futuro, no qual a humanidade atravessará um estágio de colossal avanço tecnológico em um curtíssimo espaço de tempo e no qual todos serão um mix de homem e máquina.Se já hoje não conseguimos nos separar dos smartphones, smart watches e smart tudo, em breve teremos implantados em nossos corpos e em nossos cérebros todos os tipos de gadgets e chips de conexão e comunicação em tempo real, acessando, compartilhando e produzindo todo o tipo de informação e conhecimento.


6) Educação, Empresas e Negócios.

  1. Transformação Permanente & Novos Negócios: A única situação permanente é a mudança. Com o crescente movimento empreendedor e a proliferação do mundo digital e conectado, a par de uma mudança do comportamento do consumidor, as regras da gestão e do mundo estão em causa e sendo alteradas de forma regular. Novos negócios estão dando o tom do futuro, alterando todas as bases de vida que nos trouxeram até aqui, mas que garantidamente não nos levarão para o futuro.
  2. Mindset Start-Up: Uma das grandes vantagens que as startups possuem é a sua elevada capacidade de adaptabilidade, teste, correção e abandono de projetos ou ideias quando não cumprem o previamente definido. Adotar um mindset inspirado nas startups é adotar práticas, políticas e processos que pela sua flexibilidade conseguem corrigir rotas e caminhos de forma a não prejudicar a empresa em momentos delicados, ou que potenciem os resultados pela resiliência que se adota no ajuste de rota de trabalho. Muitas vezes a lentidão na tomada de decisão, a burocracia e a forma engessada como a gestão atua prejudica o chamado time to market (t2m) permitindo eu outros (muitas vezes startups até) ganhem pedaços de mercado e tomem a dianteira em segmentos antes dominados pelas tradicionais corporações. Pessoas, processos, projetos, decisões, departamentos, todos alinhados por uma flexibilidade crescente de fail fast (teste e falhe rápido) e que regularmente atuem em grupo e de forma ágil são os pilares de uma cultura e de uma mentalidade orientada ao futuro.
  3. Novos Modelos de Atuação: Um novo mundo demanda novas formas de atuar. Seja na postura individual seja na profissional, estamos sendo obrigados (e ainda bem) a rever a forma como sempre nos comportámos como sociedade. Os livros e suas verdades absolutas em todas as áreas estão debaixo de critica legitima, abrindo espaço para novas realidades assumirem o protagonismo e com isso desenharem uma nova realidade macro à qual vamos, estruturadamente, aceder.

Reforço o convite para acessar o relatório na íntegra e que possa utilizar o seu conteúdo para a reflexão estratégica e para a tomada de decisão na gestão.

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