Anda comigo ver os aviões…

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário.

“Anda comigo ver os aviões, a levantar voo, a rasgar as nuvens…” A letra é d’ Os Azeitonas que, na canção, interpretam de forma magistral o nosso fascínio pelos aviões, pela aviação e por tudo com ela relacionado.

Quem é que, em criança, não sonhou ser piloto, comandante, hospedeira ou comissário de bordo? Voar, a única forma de deslocação que o ser humano não consegue realizar recorrendo exclusivamente ao seu próprio corpo, desperta em todos uma paixão imensa. A prova disso mesmo é: quando um grupo heterogéneo de amigos se reúne, raramente é para falar dos detalhes da sua profissão, exceto quando, no grupo, se encontra alguém ligado à aviação e, sobretudo, se este for piloto ou tripulante de cabine. Como por artes mágicas, toda a conversa acaba centrada nas viagens, nas características dos aviões, nas pistas, nos ventos, nos passageiros difíceis e em torno de todas as histórias que aconteceram numa ou noutra viagem. Todos ouvem e debatem apaixonadamente, com mais ou menos informação, tudo o que se relaciona com a aviação.

E todos quisemos e queremos pertencer à aviação. Todos quisemos, e queremos, ter um avião. Todos desejamos poder participar nesse fascinante mundo. No entanto, a vida dá as voltas que dá e, todos nós, com exceção de uns poucos afortunados, acabamos por perceber que esse sonho de criança, essa paixão, nunca se irá realizar.

Bem, todos, todos não. Infelizmente para a população portuguesa há quem continue a alimentar esse sonho. Infelizmente para todos, tudo o que se relaciona com a aviação no nosso país já custou muito, mas mesmo muito, dinheiro ao erário público, ou seja, aos contribuintes portugueses.

Já muito se tem falado da racionalidade do aumento da participação do Estado através da recompra das ações de David Neelman, provavelmente, o único empresário mundial que ganhou dinheiro no setor da aviação em 2020­, à custa da paixão que os nossos governantes nutrem pela aviação. “Neeleman vende a sua posição por 55 milhões de euros, Estado passa a controlar a TAP com 72,5% do capital” (in expresso.pt de 02/07/2020). Mas, há quem queira controlar ainda mais o setor: “Costa quer ‘controlar’ Groundforce e não apenas ‘libertar acionistas das obrigações perante os trabalhadores’” (in Eco.sapo.pt de 17-03-2021) e há quem como “Rui Rio não tem dúvidas de que o reforço da participação acionista do Estado na TAP foi ‘um erro crasso’” e que “há uns meses deixar cair a TAP teria sido melhor” (in jornaleconomico.sapo.pt de 18-02-2021).

Hoje mesmo soubemos que “diretor de operações de voos (DOV) da TAP, Carlos Damásio, vai cessar funções até à próxima sexta-feira, depois de, em fevereiro, ter manifestado ‘elevada preocupação’ com a reestruturação da companhia, segundo uma mensagem interna” (in Eco.sapo.pt de 17-03-2021). Ou seja, nem mesmo quem percebe realmente do assunto está confiante que o plano de reestruturação seja o adequado para salvar a companhia aérea.

E, portanto, em nome de uma paixão, de um sonho de criança ou, simplesmente, de uma convicção António Costa: A TAP não pode falir, é essencial para o desenvolvimento económico do país” (in tvi24.pt de 27-10-2020) vemo-nos a braços com enormes custos, investimentos faraónicos e situações caricatas — como a mais recente relativamente à Groundforce que, vá lá saber-se porquê, um empresário português se sentiu na necessidade de ter de gravar, e posteriormente divulgar, uma conversa com um ministro da República. Este facto só vem provar o quanto a nossa sociedade está doente, gravemente doente. Nem ninguém se deveria sentir na necessidade de gravar uma conversa para posteriormente tirar disso partido, nem muito menos a falta de respeito por um governante, seja porque razão seja, pode justificar que uma conversa a dois acabe no domínio público. Basicamente, todo este episódio é vergonhoso. Que exemplo estamos a deixar aos nossos filhos? Que, em surdina, podemos gravar conversas para mais tarde tirar delas partido?

A somar a este facto, descobrimos recentemente que algumas Câmaras Municipais não desejam ver os aviões por perto e, de uma só penada, deitam por terra o investimento de milhares de euros — que o contribuinte pagou — realizado em estudos e planos para o novo aeroporto de Lisboa: “De 1998 a 2012 foram gastos milhões para estudos que ficaram na gaveta. Mas o valor desperdiçado aumenta para mais de 200 milhões em obras complementares e indemnizações.” (in sol.sapo.pt de 19/02/2017).

Regressa tudo à estaca zero. Volta tudo a estar em cima da mesa: desde a fantástica OTA, com o seu monte na cabeceira da pista para atrapalhar as descolagens, até à famosa “JAMAIS” de Alcochete. E, alegremente, o contribuinte vai financiar mais estudos. Ou então, o Estado, talvez pela primeira vez — e tal como milhares de portugueses que submetem os seus planos de remodelação habitacional, ficando refém do poder autocrático das Câmaras Municipais deste país (verdadeiros travões ao desenvolvimento e ao investimento nacional) —, decida fazer o que está vedado ao normal dos mortais, e que muitos já gostariam de ter podido fazer, mudar a lei. “‘Chumbo’ do Montijo: Governo vai rever lei que dá poder de veto às autarquias” (in jn.pt de 2/03/2021). Quem pode, pode, dirá o povo.

Ou seja, temos um país sui generis. O que voa, funciona mal. Mas, o Estado salva, ou seja, os portugueses pagam. Onde vai aterrar o que voa, não se consegue determinar de uma vez por todas, anda tudo indeciso, mas os portugueses continuam a pagar para ficar a saber. E, por fim, para retirar as malas dos que voam não há dinheiro e, em consequência disso, os portugueses, uma vez mais, vão ser chamados a pagar. Em nome de uma paixão somos acionistas à força de uma companhia de aviação, de um aeroporto e de uma companhia de handling que convém recordar era originalmente 100% da TAP.

Até quando? Até quando é que os portugueses vão ter de continuar a aceitar pagar por esta paixão pela aviação? Tal como quando nos tornamos adultos percebemos que não podemos ter tudo o que desejávamos em criança, talvez seja a altura de fazer contas e perceber que não podemos continuar a sustentar um desejo de que, na realidade, não precisamos. Temos várias companhias aéreas a aterrar em Portugal para nos trazerem os queridos turistas e nos levarem daqui para fora. Todas as rotas que têm, ou tiverem, clientes potenciais serão obviamente servidas pelas companhias a operar em Portugal que, por sinal, e convém não esquecer, também empregam portugueses nos seus quadros. Justificar a existência de uma companhia aérea de bandeira por causa dos emigrantes é simplesmente um insulto a esses emigrantes e um argumento falacioso. Por causa da diáspora? Mas qual diáspora no seculo XXI? Acordem por favor! Não temos dinheiro para estes luxos. Estamos em crise, numa crise horrível que agora está a começar — esperem até acabarem as moratórias para perceberem bem o que estou aqui a prever. Por esta razão, por favor, não gastem mais dinheiro em luxos, em paixões desnecessárias. Já agora, antes de começar outra vez a gastar dinheiro com mais estudos arquitetónicos de aerogares em novos locais, estudem igualmente as novas tendências relativas ao transporte aéreo porque prevejo que, quando o novo aeroporto de Lisboa for finalmente inaugurado, provavelmente, o que estará em uso será o transporte através de drones autónomos que nos ligarão a qualquer lado num raio de 700km, ou seja, ao aeroporto de Madrid, de forma rápida, segura e eficaz.

Em economia, no que diz respeito às empresas, não podem existir vacas sagradas. O que tem de falir, tem simplesmente de falir. O que não é viável economicamente, repetidas vezes e ao longo de vários anos, tem uma solução: fechar. Estar a ligar empresas ao “ventilador” — ou seja, a financiamentos sucessivos sobretudo do Estado — para podermos mostrar que as temos é tão irracional como quem não tem dinheiro para comer bifes em casa andar a comprar um “plasma” a prestações para “ver a bola” com os amigos.

Só espero que, de uma vez por todas, ponderem os prós e os contras económicos desta paixão, bem como nunca mais voltar a ver um defensor desta “TAP essencial, nacional e estratégica” sentado a bordo de uma companhia low cost estrangeira quando tiver de viajar e pagar o seu bilhete, e os da sua família, numa viagem privada. Sim, porque se é assim tão essencial, não é para atraiçoar essa convicção quando é o próprio e não o Estado a pagar, é para manter essa paixão até ao fim.

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