A sociedade do “we” assente no “me” – o exemplo da Waze

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Sou um utilizador regular desta plataforma pela sua utilidade, na poupança de tempo de viagens, localização de radares, de acidentes e outros motivos que intrinsecamente já assimilei como commodities mas que acrescentam valor. Mas não é da plataforma que pretendo falar, mas da cultura subjacente a está plataforma. O mundo digital “empurrou-nos” para uma sociedade muito centrada na pessoa singular e muito menos na comunidade. Expressamos sentimentos, opinamos, criticamos, vivemos centrados no telemóvel e cada vez menos comunicamos mesmo quando estamos juntos. Mas esta plataforma utiliza o interesse individual de cada utilizador para “alimentar” uma comunidade de utilizadores, transformando dados em Informação útil. Ou seja, o meu envolvimento aumenta, confirmo situações de trânsito por exemplo, muito porque espero que outros o façam, e no final, eu beneficie com isso. O interesse individual apenas beneficia quando o interesse do grupo é atingido. É quase como um esquema piramidal sem o risco ou prejuízo. E é este (para além da capacidade técnica e simplicidade da plataforma) o segredo que os criadores descortinaram: Como fazer com que todos ganhem numa sociedade em que apenas o indivíduo parecia contar? Algo que a nossa sociedade deveria repensar. E quando me refiro a sociedade, retiro-me á escola, ao pagamento de impostos, á responsabilidade social, á família, á cultura, ao modelo político, á integração dos jovens e dos perennials… entendo portanto que o contrato social deve ser renegociado, deve ser baseado na lógica do “Waze”, e é um modelo de sistema de circularidade. Relembrando que um sistema é um conjunto de elementos independentes (o “me”) que se tornam interdependentes quando estão em sociedade, para formar um todo organizado (o “we”). A circularidade significa que o ponto de chegada é o mesmo que o ponto de partida. Portanto o bem comum, condiciona o bem individual.

Falar é fácil e criar modelos também. O sistema de circularidade é um misto de Rousseau e Hobbes. Rousseau aflorou parte deste sistema na sua obra “ Do Contrato Social “ quando descreve o contrato social para criar um acordo entre indivíduos para se criar uma sociedade, e só então temos um Estado, isto é, o contrato é um pacto de associação, não de submissão. Mas o indivíduo é para Rousseau naturalmente bom. E é aqui que discordo pois a pessoa, a sua educação e o seu meio envolvente condicionam o indivíduo. Não há naturalmente bons ou maus. Concordo com Hobbes, que considera que existe uma constante guerra de todos contra todos (Bellum omnia omnes), eu diria que “o meu umbigo é sempre maior que o dos outros”, portanto os meus interesses prevalecem. No entanto, os homens têm um desejo, que é também em interesse próprio, de acabar com a guerra e, por isso, formam sociedades através de um contrato social. O conceito de circularidade. Só que para Hobbes tem de existir uma autoridade à qual todos os membros devem render o suficiente da sua liberdade natural, em que cada indivíduo cede parte da sua soberania em prol do bem estar colectivo. E esta parte não concordo na totalidade, pois não existe o conceito de sistema, de democracia, mas de Autoridade (típico de um filósofo que viveu num regime monárquico).

Portanto o misto do contrato social de ambos, é o sistema de circularidade. Mas como disse, falar é fácil, torná-los operacionais é um pouco mais difícil. Em minha opinião, algumas regras são:

  • O primeiro ponto a considerar e relembrar é que o Estado e a sociedade somos todos nós, portanto não é uma entidade alienada e longe de cada um. Portanto tudo o que fizermos ao estado e sociedade, estamos a fazer a nós próprios,
  • A educação e o exemplo são, a par com o ponto anterior, os 2 bens mais preciosos para que a sociedade se torne uma comunidade em que sejamos felizes a viver. Logo o investimento na escola, na literacia, mas também na educação é fundamental,
  • O capitalismo é o pior modelo que existe, mas ainda ninguém inventou um melhor; deve é ser um capitalismo social, com relações “win-win”, transparentes, sustentáveis e éticas,
  • A sociedade deve ser circular, já não só a economia. Ou seja, alguém cuidou de nós em crianças, cuidemos então dos idosos, solitários, abandonados. Não se trata apenas de ajudar e sim, de compartilhar momentos,
  • A democracia já mostrou que é imperfeita pois desresponsabiliza os políticos e o sistema, fazendo com que os cidadãos se desliguem da mesma e se abstenham. Criemos então círculos de responsabilidade e modelos de proximidade, de participação directa dos cidadãos, perfil de homem político com espírito de missão e não de “tacho”,
  • A justiça não funciona sendo lenta e irresponsável, portanto a celeridade dos processos e responsabilidade dos actores da justiça é fundamental,
  • O modelo de financiamento deve ser circular e os cidadãos têm de o entender. O pagamento de impostos deve ser justificado, não proporcional e responsável. Os benefícios do pagamento dos mesmos tem de ser objectivo e não apenas uma obrigação para um modelo social que estimula “acabar com os ricos e não com os pobres”, a fuga aos impostos, a corrupção,
  • O corporativismo das actividades deve acabar responsabilizando as mesmas e proporcionando modelos de avaliação independentes, estimulando a meritocracia,
  • A corrupção deve ser punida de forma muito pesada e rápida, a justiça deve desencorajar a mesma. A título de exemplo os modelos de financiamento dos partidos e a auditoria regular de decisões,
  • Promover a participação da sociedade civil em grupos organizados na comunidade,
  • Fake news que espalhemos podem um dia virar-se contra nós,

Em suma, o sistema de circularidade será a melhor opção para a sociedade que queremos reescrever!

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