A nova ordem mundial com a morte da globalização

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

A morte da globalização trouxe um novo conceito de ordem geoestratégica mundial, a Blocalização. O Blocal contém 3 princípios básicos de construção, ou seja é = “nearshore + friendshore + multishore”.
A identificação ideológica de princípios ESG e socioeconómica cria blocos homogéneos e coesos. Algo que não deve ser confundido com o que aconteceu na segunda guerra mundial com os aliados e o eixo,  ou na guerra fria com o bloco socialista. Um porque era circunstancial face a um evento militar e o outro porque na realidade não existia um bloco mas um país que impunha um regime.
A blocalização serve para diminuir as fronteiras impostas pelos países, autonomia na produção de bens essenciais e logística; com trocas significativas dentro do bloco como mão de obra, serviços, capitais e fluxo de mercadorias. São zonas de livre comércio, com união aduaneira, um mercado comum e uma união económica. Ou seja, um conglomerado dos tipos de blocos existentes. Tudo porque a globalização foi uma dinâmica económica e social que morreu. O exemplo dos semicondutores feitos na Ásia, nomeadamente em Taiwan, bloquearam a produção industrial (automóvel entre outras) por problemas logísticos, acelerarando o “nearshore”, eliminando o “offshore”. O problema com a China em relação a este território apenas o está a confirmar.
Outro princípio é o “friendshore”. A invasão russa da Ucrânia (pois a Rússia está perto -“nearshore”-  da Europa para fornecimento de gás, petróleo e cereais mas é um parceiro não confiável) aceleraram a necessidade do “friendshore” nas relações. Estamos portanto num mundo mais blocalizado e polarizado, menos cumpridor dos acordos e leis internacionais que tinham sido consensuadas. Do global voamos para o blocal.
As novas parcerias vão ser mais blocais (por bloco) de alianças de “friendly countries” em lugar dos acordos globais gerais de adesão e cumprimento de regras.
Mas isso não é necessariamente melhor para o mundo. Há riscos que vão ser diferentes mas não necessariamente menores ou mais estáveis. Temos de escolher muito bem os “friendshore” para cada bloco e ter sempre a alternativa dentro do bloco, para a produção de produtos e bens essenciais (“multishore”). Ou seja um backup (que não temos actualmente), como vemos, por exemplo, com os cereais cujo monopólio é essencialmente ucranianos e russo. Trata-se de ter dentro dos blocos várias alternativas para não cometer o mesmo erro de ficar dependente do fornecimento de bens essenciais por apenas um pais. As economias de escala devem ser ganhas dentro dos blocos. As regras e acordos de cada bloco devem ser rígidas quer no acesso, quer na exclusão, pois os princípios têm de ser comuns. O que coloca o desafio do modelo da democracia, pois as ideologias e governos podem mudar dentro de cada país. O que hoje é verdade, pode não ser amanhã e o voto define o respeito pelas regras ESG ou não. Como vemos com a ascensão da extrema direita nalguns países, com o Brexit no Reino Unido ou a Hungria ao nível de alguns direitos fundamentais. Colocando em causa o “friendshore”. Para isso devem ser criados mecanismos de exclusão automáticos (daí a necessidade do “multishore”). Outro é o risco de desequilíbrio entre países do mesmo bloco mas com dimensões diferentes, economias mais frágeis e consequente hegemonia de uns em relação a outros. Com o aproveitamento de mão de obra barata (algo que vemos no NAFTA na relação México – USA) e a dependência em relação ao mercado hegemónico, com maior dimensão e com maior poder de compra. Fazendo com que os grandes fiquem ainda maiores e os pequenos mais dependentes. Por outro lado, a ambição de alguns empresários a continuar a utilizar mercados de mão de obra barata fora do bloco, na ânsia do lucro, é uma forte possibilidade de “furar” o modelo blocal. Finalmente o proteccionismo económico que pode existir em alguns blocos em relação a produtos que vêm de outros países não pertencentes ao mesmo, que pode constituir um obstáculo caso o bloco não seja auto-sustentado.
Mas julgo que há mais vantagens do que riscos no modelo blocal, desde que estes sejam identificados e minimizados. Há que internalizar e tornar auto-sustentável cada bloco ao nível da autonomia energética descarbonizada, desenvolvimento digital, de inovação tecnológica e criação de um sistema alimentar tecnologicamente inteligente e circular. Certos países serão plataformas multibloco pela sua localização estratégica e pelas suas características de respeito pelos princípios ESG.
Obviamente algumas organizações actualmente supranacionais passarão a suprablocais, como a ONU. A Blocalização militar e defesa comum será uma realidade.
Em suma, a nova ordem mundial blocal com a morte da globalização traz inúmeros desafios e oportunidades com os quais temos de aprender a viver. Mas recorde-se sempre que em tempos de crise (e mudança, acrescento), muitos choram e outros vendem lenços de papel!

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