A grande revolução cultural

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Julgo que a quinta revolução depois da industrial e da 4.0, está a acontecer já, não por causa do ser humano, mas dum vírus horrendo chamado covid 19. Teria que acontecer, mas foi acelerada pela pandemia. A revolução no modelo laboral e do mundo do trabalho. Mas de alguma forma a pandemia tornou mais “humana” a forma como recebemos o salário, com as empresas de sucesso a terem que mostrar genuína preocupação com os seus trabalhadores. A flexibilização do local e horário de trabalho, as novas profissões, a integração com o mundo digital e inteligência artificial, a cultura do work life balance, as novas formas de remuneração, a redefinição do propósito das organizações, a atração e retenção do talento, as novas formas inorgânicas de representação dos trabalhadores, a ecosustentabilidade como valor das organizações, as novas formas de avaliação do valor das empresas incluindo o ESG como fundamental, a integração de pessoas com deficiência, o respeito pela diversidade de género… tudo está a mudar, excepto a legislação e a forma como os governos e sindicatos veem o mundo do trabalho, tentando “lutar contra a corrente”. Como no início do século XX as carruagens tentavam superar a “nova tecnologia automóvel” democratizada pelo Sr Ford. E será impossível lutar contra uma tendência que se está a tornar uma cultura. Intrinsecamente a sociedade e o cidadão apenas aceitarão trabalhar em organizações assim. Ainda temos 4 gerações a trabalhar em paralelo (baby boomers, geração X, millennials e geração Z), pelo que a mudança seria lenta, não fora a pandemia. Aquilo que motiva uns, desmotiva outros. A definição de hierarquias “flat” e gestão por projectos de acordo com as competências, baralha uns e aumenta a produtividade de outros. A IA e robotização do trabalho, extinguiu algumas funções e aumentou o desemprego mas criou outras novas funções e novas oportunidades. A avaliação por resultados e não por processos, criou uma disrupção cultural dentro das organizações. As bolsas de valores lutam para entender como avaliar o risco de empresas com EBITDAS elevados mas que não cumprem as regras ESG, criando riscos elevados no seu futuro, nomeadamente ao nível de Governance, depois da crise de 2008. A forma como integramos os novos colaboradores também mudou, aumentando a necessidade de transmitir de imediato, impacto e sentido comunitário da organização. As organizações passaram a querer cidadãos trabalhadores e não apenas trabalhadores. O machine learning está a revolucionar os processos de recrutamento e a esvaziar muitas funções dos RH. O trabalho remoto redefiniu a “accountability” como factor crucial, assim como a forma de controlo das empresas, mas com a delicadeza de não invadir a privacidade individual e digital. A progressão e gestão de carreiras passou a ser um milestone em paralelo com o salário e outros “fringe benefits”, como o seguro de saúde. 

Em suma, são tantas mudanças que a cultura de trabalho “sofreu”, como numa revolução. E os líderes são fundamentais para entender e tomar as medidas correctas. Até porque, segundo um estudo da Xerox (“Future of Work”), estima-se que com este novo modelo, haverá um aumento de 16% do volume de negócio das empresas e uma redução de custos em 13%, apenas com uma das transformações, a do local de trabalho. Bem sabemos que a futurologia nem sempre funciona, mas Imaginemos o potencial (e o risco) por trás desta revolução…

Como dizia antes, os líderes: sejam políticos, empresariais, sindicais, laborais, trenders, académicos, têm realmente que compreender e adaptar o seu comportamento, decisões, medidas, legislação e mesmo o seu “cogitatio” de forma a que o processo seja inclusivo e mantenha o equilíbrio social que todos queremos!

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