A “globalização” morreu. Viva a “blocalização!

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

O mundo tornou-se BANI quando já não bastava ser VUCA. Ou seja, um mundo (acrónimo em inglês) frágil, ansioso, não-linear e, em alguns aspetos, incompreensível. Fruto dos choques múltiplos causados pelo Covid e guerra na Ucrânia, dos problemas no fornecimento das matérias primas e commodities, do aumento preço energia e das matérias primas (ex: semicondutores), das limitações da geopolítica e restrições ao comércio, da inflação e risco de aumento das taxas de juro, do target da descarbonização e sustentabilidade (IMO 2023) que irão gerar ainda mais constrangimentos na supply chain, da diminuição do investimento na produção (pela dúvida que os lockdowns durante a pandemia causaram) que reduziram bastante a oferta, pela logística e transporte a não suportarem o aumento de trabalho e com eventos que criaram disrupções no modelo (ex: do Evergreen no canal do Suez), pela mudança do nosso padrão de consumo dos serviços (ex; Cinema) para produtos físicos, pelo estímulo para consumo (e poupança) e existência de mais dinheiro disponível (pois não havia onde o gastar)… Criou-se aqui a tempestade perfeita. A única solução global foi o e-commerce mas mesmo este criou uma pressão no custo imobiliário (”Last mile wharehouse”) pois a entrega tem de estar mais perto do consumidor. Por ouro lado os países perceberam que estarem dependentes de economias (apesar de produzirem mais barato) que não têm os mesmos valores, é um risco acrescido elevadíssimo. Estar dependente de países que utilizam a economia como política estratégica como a Rússia, China ou Índia, não traz segurança ás empresas. Portanto o modelo de globalização falhou e morreu. O Mundo tem de estar preparado para a “Blocalização”, ou seja o mundo dividido em Blocos económicos que sejam auto-sustentáveis quer ao nível do fabrico, quer ao nível do consumo. Muitos já existem, apenas têm de criar regras comuns. O mundo está a avançar em direção à “blocalização”, pois a globalização está no fim dos seus dias, depois de se ter revelado inadequada à realidade que hoje se desenrola à frente dos nossos olhos.

O mundo caminha em direção a uma “blocalização”, ou seja, à transição de uma economia fundamentalmente globalizada para economias alicerçadas em blocos de países, unidos por interesses mútuos, valores partilhados e moedas comuns.  Esta nova estrutura da economia mundial permitirá reduzir a dependência significativa de países com os quais não se partilham valores e que podem causar sérios impactos negativos ao nível dos volumes de fornecimento. Mas esta “blocalização” não significa que os países passarão a produzir o que precisam para suprir as suas próprias necessidades. O que acontece é que, dentro de cada bloco, os seus membros especializar-se-ão na produção de determinados bens e artigos, alimentando o mercado do bloco. Assim, do offshoring não vamos passar para o onshoring, mas sim para o nearshoring. Blocos como a União Europeia e o norte de África, ou a América do Norte e alguns países da América Central, ou ainda na Ásia os mercados mais integrativos (que não incluem a China claro está).

Os países e empresas mais eficientes estarão presentes em 2 ou 3 blocos, mas focados principalmente num, o seu! Como tal, os países têm de Integrar a conectividade das cadeias de valor (Omnichannel) ao nível da energia, dos transportes, do digital e do “People to People”.

Portugal tem uma oportunidade única de se tornar a plataforma logística no Centro do Mundo que está à mesma distância de todos os continentes e actuar de forma multibloco!

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