A galinha dos ovos de oiro

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário

 

Saiu-nos a galinha dos ovos de oiro: “O Reino Unido coloca Portugal na lista verde de países seguros para viajar” (in TSF.pt de 7/05/2021). E, não só nos colocou na lista verde como fez com que toda a nossa concorrência ficasse verde de inveja. E isto porque a maioria dos destinos de férias europeus e do norte de África ficaram fora dessa lista, fazendo com que aos “súbditos de sua majestade”, que quisessem fazer férias fora da ilha, não lhes restasse outra alternativa que não a de rumar à “Tugolândia”.

Infelizmente, uma consequência desta boa notícia é que “A procura de voos para Portugal disparou desde a noite passada e as companhias aéreas já estão a aumentar os preços. A British Airways, por exemplo, cobra agora mais de 500 libras por um voo do aeroporto de Heathrow para o Algarve a 17 de maio quando, há dois dias, cobrava menos de metade. Já um voo da Ryanair de Stansted para Lisboa pode custar mais de 150 libras quando há dias custava apenas 15.” (in TSF.pt de 7/05/2021). Especulação dirão uns, é o mercado a funcionar dirão outros.

Mas, o mais importante é não metermos a pata na poça. Porque, não é que logo após nos ter sido dada a boa nova, o nosso governo veio declarar o prolongamento do estado de calamidade sem redefinir as regras para os nossos turistas, fazendo com que os: “Britânicos com esperança de férias em Portugal em risco de não o poderem fazer. Estado de calamidade a vigorar até 30 de maio, que impede viagens não essenciais, pode impedir turistas britânicos de gozar descanso em terras lusas” (in cm.pt de 14/05/2021).

Ó, valha-nos Deus! Nem quando recebemos uma prenda temos cuidado com ela? Imaginem o que isto provocou de confusão lá na ilha: “Podemos ir, mas chegando lá, não podemos entrar? Se calhar, o melhor é não ir…” terão pensado os britânicos.

Bem sei que o nosso governo não o deve ter feito por mal. Foi, mais uma vez, pouco previdente nas leis, orientações e decretos que emite sem refletir bem todas as consequências. Felizmente, conseguiu, com o desenrascanço nacional que nos carateriza, emendar a mão, dar o dito por não dito e corrigir a situação. Mas, desta vez, eu entendo bem o governo. Tendo em conta que a rapaziada aqui do burgo está com as hormonas à flor da pele para dançar e sair à noite “Festa ilegal: A PSP dispersou uma multidão de 500 pessoas num miradouro em Lisboa, a maioria sem máscara” (in observador.pt 2/05/2021) e que a estas festividades se seguiu a grande manifestação popular de regozijo por um título desportivo em Lisboa, o governo não pensou duas vezes e decidiu publicar o decreto que prolongou o estado de calamidade.

A verdade é que não convém estragar isto. Isto, pura e simplesmente, pode ser a salvação do ano 2021 para Portugal e o princípio do relançamento da nossa economia. Razão pela qual convém termos todos muito juízo, sermos todos muito responsáveis e não fazer nada que possa levar o governo britânico a rever esta sua tão sábia decisão. Mas, temos também que nos pôr a pau com os nossos queridos vizinhos. Os nuestros hermanos — que de parvos nunca tiveram nada e mais bem sabem é fazer-nos a nós de parvos — já estão certamente a preparar um corredor terrestre de autocarros entre o aeroporto de Faro e todas aquelas estâncias de férias situadas a seguir ao Guadiana e pontuadas por praias feias e de areia escura que vão da fronteira até Cádiz. Assim sendo, sugiro ao nosso governo que, agora sim, agora é que deveríamos fechar algumas das nossas fronteiras terrestres com Espanha. Na impossibilidade de as fechar todas, deveríamos, no mínimo, fechar a de Vila Real de Santo António/Castro Marim e a de Vila Verde de Ficalho. Se nos quiserem roubar os turistas, que o façam, mas não sem antes darem uma grande volta ao Algarve e Alentejo desde o aeroporto de Faro até à fronteira de Elvas. E, pelo caminho, a GNR que receba ordens claras — coisa rara vindo do Ministério que a tutela — para parar todos os autocarros de matrícula espanhola e realizar uma inspeção detalhada e demorada, de uma ou mais horitas, das condições de circulação dessas viaturas. Sim, confesso que é triste, eu um liberal convicto, um europeísta ferrenho desde a primeira hora, estar a advogar a introdução de imposições que visam limitar a concorrência e a livre circulação de pessoas entre os nossos países. Mas, caríssimos, trata-se de um imperativo nacional e temos sobretudo que evitar que os nossos turistas, que ganhámos à conta de um confinamento duplo que nos deixou completamente de tanga, possam vir a ser infetados em terras de Dom Quixote e Sancho Pança onde o vírus anda à solta e descontrolado e, com isso, perder o nosso tão querido estatuto verde. “Inglaterra mantiene a España en la lista de destinos con cuarentena” (in las lasprovincias.es de 7/05/2021).

Portanto, tal como em 1640, vamos ter que nos defender de quem nos pode prejudicar. E nunca duvidem que, se fosse ao contrário, eles não hesitariam em fazê-lo.

Assim, é imperativo que aproveitemos esta ocasião de oiro, ganha à custa do sofrimento de todos os portugueses, para fazer com que os nossos queridos turistas nunca mais queiram ir para outro lado.

E, para que isso aconteça, era bom evitarmos greves como aquelas que agora se anunciam “pré-aviso de greve do SEF pode «arruinar o verão», alerta APAVT” (in publituris.pt de 19/05/2021) ou “Primeiras horas da greve da Função Pública afetaram vários serviços” (in rtp.pt de 20/05/2021). Por muita razão que acreditem que tenham, era bem mais inteligente, para o bem de todos, marcar estas ações de luta para depois dos queridos turistas cá terem deixado o seu pecúlio. Agora é tempo de trabalhar, de demonstrar que somos merecedores das suas visitas e de reforçar os funcionários do SEF nas fronteiras para garantir que entram sem o mínimo de dificuldades. Por outro lado, e embora seja bom ganharmos dinheiro com eles, seria avisado não matar e fazer um churrasco com a galinha dos ovos de oiro logo no primeiro ano, ou seja: Não aumentemos os preços de forma desmesurada nem tentemos cobrir todos os prejuízos da pandemia logo no primeiro verão. Bem sei que é difícil, que planear, sobretudo planear a dois, três anos é tudo menos português mas, neste caso, convém refrearmos um pouco o nosso ímpeto imediatista e resistir à tentação de um enriquecimento rápido. Se nos portarmos bem, se acolhermos os turistas com a nossa arte de bem receber, com a nossa simpatia, então eles, enfeitiçados por nós, conquistados pela nossa comidinha e pelo nosso sol que brilha nas nossas lindas praias de areia branca, nunca mais vão olhar para outra alternativa. Este verão pode ser o princípio de algo fenomenal para a nossa economia.  É certo que nos arriscamos a perder o nosso Portugal para os estrangeiros mas, quem é pobre é assim, e temos que saber oferecer o que de melhor temos para podermos ambicionar continuar a viver felizes.

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