À procura de confiança

Por Bernardo Corrêa de Barros, Presidente do Turismo de Cascais.

1993 foi um ano rico em acontecimentos, tal como foram todos os anos da História.

1993 foi o ano em que Bill Clinton tomou posse como 42.º Presidente dos Estados Unidos, foi também o ano em que o prémio Nobel da Paz foi atribuído a Nelson Mandela e a Jamaicana Lina Hanna foi eleita Miss Mundo.

Foram iniciadas as obras da Expo 98, nasceu a Ariana Grande, morreu a saudosa Audrey Hepburn e também Pablo Escobar. O Expresso gerou polémica além-fronteiras com a publicação de uma fotografia do Papa com um preservativo no nariz e Cavaco Silva deu luz verde para a construção da barragem do Alqueva.

Também em 1993, Braga de Macedo, então Ministro das Finanças do XII Governo Constitucional, previu em orçamento para o ano de 1994 com um défice de 776 milhões de contos.

Naturalmente, em 1993, o nosso Presidente Mário Soares fez mais umas viagens e, dos 43 Estados visitados em dois mandatos, visitou oito, desta feita, Reino Unido, EUA, República da Irlanda, Chile, Coreia do Sul, Japão, Macau e foi também a Paris “onde vai discursar perante a Academia Francesa (será o décimo quarto homem de Estado a fazê-lo, a convite da Academia, em mais de três séculos)”, assim escrevia Alfredo Barroso, então chefe da Casa Civil da Presidência da República.

Ferreira do Amaral proibiu o envolvimento de empresas públicas nos negócios de telefonemas eróticos e a Eduarda, que moderava uma sala no ClubHouse na quarta-feira passada, estava na 3.ª classe e tinha uma professora que odiava, que lhe batia com uma régua de madeira e que usava batom e unhas encarnadas (razão pela qual não usa batom encarnado e unhas da mesma cor).

Hoje, no ano de 2021, foram aprovadas as infraestruturas para a Jornada Mundial da Juventude em 2023, morreu o Príncipe de Edimburgo e, pela primeira vez, um Papa visita o Iraque e o nosso Presidente pouco viaja. A minha filha mal conhece os professores que tem no Zoom e não é necessário legislar sobre telefonemas eróticos porque a pornografia, dizem, passa-se na justiça.

Ao contrário de Braga de Macedo, que apresentava um violento défice para o nosso país, em 2021 o nosso Governo bamboleia entre o “vai correr tudo bem” e o desconfinamento, ou talvez não.

Acontece que, tal como já tinha escrito neste fórum e como dizia esta semana o Presidente da Confederação de Turismo de Portugal, Francisco Calheiros, os números do Turismo em 2020 regrediram para 1993, foram perdidos no Turismo 45.000 postos de trabalho e os números de fevereiro regrediram 50 anos, ao nível de 1974. Ano em que nascia o meu irmão.

Em 1974 vivíamos uma queda abrupta da libra esterlina que limitava o fluxo de turistas do Reino Unido para o nosso país, morria o Presidente Pompidou, Soares voltava do exílio e acontecia a Revolução dos Cravos que pôs fim à ditadura. Vivíamos também o ano em que a vacina do sarampo foi introduzida no plano Nacional de Vacinação, na altura apenas com uma dose.

Ora, em 2021, não temos a crise da libra, mas temos as maiores limitações à circulação do nosso principal mercado (Reino Unido) de que há memória. A minha filha não quer voltar à escola com medo da pandemia e não confia no plano delineado, a desconfiança no plano de vacinação e as incertezas que todos os dias vêm a lume são mais que muitas, o meu irmão é um dos 45.000, as empresas não confiam nem no Ministro das Finanças, nem no Ministro da Economia e a vacina do sarampo tem hoje duas doses.

Confiança é a palavra de ordem.

Tal como dizia Francis Fukuyama, por cada 10% de aumento dos níveis de confiança num país, o PIB cresce 1%.

Alguém tem de nos dar a confiança de que os nossos filhos voltam à escola em segurança; os empresários necessitam de acreditar num plano e que os apoios vão chegar; os mais velhos necessitam da confiança que a vacina que estão a tomar é segura; o povo tem de voltar a acreditar na justiça, e os nossos irmãos necessitam de acreditar que vão voltar a ter emprego.

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